segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Produtores de Roraima

por Ana Prudente
Meu depoimento fala do que vivi, não li em livros nem ninguém me contou.
Era madrugada. Aqueles semblantes assustados, olhos atentos a cada movimento à sua volta, nem imaginavam para onde seriam levados. Muitos deles descalços, apenas com a roupa do corpo, era assim que aquelas famílias embarcavam nas aeronaves que os levariam a um destino desconhecido. 
Depois de viajarem mais de 40 horas em ônibus fretados pelo estado do Rio Grande do Sul até Porto Alegre, apenas nós da tripulação sabíamos que eles seriam conduzidos ao extremo norte do Brasil. 
Tratava-se de deslocamentos de colonos familiarizados com o plantio de grãos, organizados pelo governo federal no final dos anos 70. 
Lhes foram oferecidas glebas e mais glebas de terra, desde que as fizessem produzir em um lugar que ainda não tinha infra-estrutura, nem plantações, não tinha nada! Eles teriam de iniciar do zero esta nova vida, num clima totalmente diferente daquele onde cresceram.
Depois do desembarque em Manaus, seriam conduzidos por muitas horas de viagem ao local determinado. E lá se foram os colonos gaúchos, levados para algum lugar longe da civilização.
Só eu realizei três fretamentos levando aquela gente simples, mas ocorreram muitos mais. As aeronaves da VASP partiam lotadas naquelas madrugadas! E eles trabalharam, plantaram, construiram suas casas e investiram no futuro de seus filhos e novas gerações. E são estes mesmos colonos que agora, querem expulsar das terras que conquistaram com trabalho honesto, com muita dedicação. 
Muitos se destacaram e se transformaram nos maiores plantadores de arroz do Brasil. E foram ampliando seu plantio, comprando mais terras. Outros levam uma vida mais simples, por terem escolhido assim ou mesmo, porque tenha lhes faltado obstinação e coragem para vencer as dificuldades.
Os produtores de Roraima não podem ser chutados como se fossem cães sarnentos e simplesmente serem expulsos das terras que por direito, são deles. Se existe algum tipo de grilagem, então que se faça auditoria em cada caso e que se expulsem os oportunistas.
Generalizar como o fez o Ministro Carlos Alberto Direito, trata-se de ato inconstitucional e usurpação ao direito de propriedade, se é que ainda vivemos sob um regime democrático.
Confio no bom discernimento do Exmo. Ministro Marco Aurélio de Mello, para que consiga reverter esta injustiça vergonhosa que o STF possa vir a cometer e que tenho certeza, apenas por falta de informações suficientes sobre o histórico destes. O Brasil é dos brasileiros, todos são iguais e subordinados à Carta Magna!
Ana Prudente (São Paulo)

Fonte: recebido por correio eletrônico


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