sexta-feira, 11 de julho de 2008

Lavagem à Brasileira

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A respeito da postagem anterior, transcrevo uma reportagem antiga da revista ISTO É:
Preso no Ceará, colombiano conta que opera com dinheiro do cartel de Cáli no País há seis anos
Francisco Alves Filho - Fortaleza 
Na atual temporada de caça aos narcotraficantes, inspirada pela CPI, um peixe grande foi apanhado no Ceará. O colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez, 35 anos, preso desde 6 de outubro, admitiu que há seis anos lava dinheiro no Brasil para traficantes de Cáli. Jimenez dá detalhes de sua atuação, nomeia os bancos com os quais trabalhou e diz que o Banco Central poderia, se quisesse, identificar essas operações. 
IstoÉ - Você faz parte do cartel de Cáli?
Joaquim Hernando Castilla Jimenez - Esse conceito de cartel de Cáli não existe mais. Isso houve numa época de muita violência. O fato de eu ser de Cáli não quer dizer que seja do cartel. Agora, a maneira como eles ganhavam o dinheiro ... isso não era da minha incumbência. Minha tarefa era fazer aplicações.
IstoÉ - Mas você sabia que o dinheiro vinha do narcotráfico.
Jimenez - Nós nunca perguntamos de onde vem o dinheiro. Eu procurava aplicá-lo da melhor forma possível. 
IstoÉ - De que maneira fazia isso?
Jimenez - Inicialmente usamos a cidade de Letícia (Colômbia) como ponte. Vinha em espécie, passava na fronteira como se fosse carregamento de peixes e depois ia de balsa até Manaus, onde distribuíamos para aplicá-lo no Brasil. Até que encontramos métodos melhores.
IstoÉ - Que meios foram esses? 
Jimenez - Métodos legais, por intermédio de bancos. O dinheiro é remetido de uma conta nos EUA, limpa e legal. Utilizamos também Ilhas Cayman, Bahamas. Através de operadores de nossa confiança dentro desses bancos, diminuímos o rastreamento do dinheiro pelo Federal Bank dos EUA.
Usando essas pessoas, autorizávamos a emissão de ordem de pagamento para bancos dentro do Brasil. Quando o dinheiro chegava aqui, antes de concluir o fechamento do câmbio, estornávamos o dinheiro. A operação aparecia registrada legalmente. Se o banco me perguntasse sobre a justificativa do dinheiro, dizia que tinha uma ordem de pagamento. E acabou. Tínhamos operadores no Banco Real, HSBC-Bamerindus, Unibanco, Bradesco e Bozano, Simonsen. Do Exterior, só quero citar o Delta Bank.
IstoÉ - A partir daí, você fazia o quê?
Jimenez - Eu fazia a operação. Depois, advogados se encarregavam de adquirir imóveis. A operação era feita para mim, por mim e meus operadores, que tinha dentro dos bancos.
IstoÉ - O Banco Central tem como checar as suas informações?
Jimenez - Se quisesse realmente faria isso. Basta verificar as ordens de pagamento.
IstoÉ - É verdade que você movimentou US$ 720 milhões?
Jimenez - Não posso te dar uma cifra real. Entenda: de 1985 a 1997, nada menos que 85% da cocaína que entrava nos EUA e na Europa vinha dos cartéis colombianos. Posso dizer que na última operação movimentei US$ 5 milhões.
IstoÉ - Políticos ou empresários lhe dão proteção?
Jimenez - Não. Minha proteção se chama dinheiro. 
IstoÉ - O trabalho da CPI pode diminuir o problema do narcotráfico? 
Jimenez - Acho que a CPI faz um trabalho para aparecer. O melhor seria um trabalho investigativo. Mas vi nomes na imprensa com quem não tenho nada a ver. Isso é perigoso. Os traficantes de Cáli não são como a quadrilhinha de Hildebrando Pascoal. O negócio é diferente. Corre-se o risco de envolver pessoas que não têm nada a ver e podem amanhecer mortas por aí... 
IstoÉ - Tem medo de morrer depois dessas declarações?
Jimenez - Eu circulei livremente por dez anos, tenho dez nomes falsos. Eu sei como me cuidar. Eu irei embora e virão outros Joaquins Castillas. Mas vai ser difícil que esse tipo de dinheiro pare de entrar no Brasil.
IstoÉ - Por que você e seu grupo escolheram trabalhar no Brasil?
Jimenez - O Brasil é um país muito grande, privilegiado, é o país do futuro... (sorri). Decidimos operar por aqui. Mas, desafortunadamente, fomos presos. 
Esta reportagem foi feita pela Revista IstoÉ em 24/09/1999.
Fonte: Ex-Bancário
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