sábado, 26 de abril de 2008

Dois José Genoíno

(...) Genoíno, olha no meu olho, você está me vendo. Eu te prendi na mata e não toquei num fio de cabelo seu. Não te demos uma facãozada, não te demos uma bolacha, coisa que me arrependo hoje.
(...) Triste notícia veio depois. O grupo do Genoíno prendeu um filho do Antônio Pereira, aquele senhor humilde, que morava nos confins da picada de Pará da Lama, a 100 Km de São Geraldo.
O filho dele era um garoto de 17 anos, que eu não queria levar como guia, porque ao olhar para ele me lembrei do meu filho que tinha a mesma idade. Então eu disse ao João: Não quero levar o seu filho. Eu sabia das implicações ou já desconfiava.
Cortaram primeiro uma orelha
(...) Pois bem. Depois que nos retiramos, os companheiros do José Genoíno pegaram o rapaz e o esquartejaram. Genoíno, aquele rapaz foi esquartejado, toda Xambioá sabe disso, todos os moradores de Xambioá sabem da vida do pobre coitado do Antonio Pereira, pai do João Pereira, e vocês nunca tiveram a coragem de pedir pelo menos uma desculpa por terem esquartejado o rapaz. Cortaram primeiro uma orelha, na frente da família, no pátio da casa do Antonio Pereira. Cortaram a segunda orelha, o rapaz urrava de dor, e a mãe desmaiou. Eles continuaram, cortaram os dedos, as mãos e no final deram a facada que matou João Pereira.
(Coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel)

Agora eu comento e conto mais.
É mentira que esses genoínos, lamarcas, marighellas, franklins martins e dilmas rousseffs da vida lutaram contra a ditadura militar brasileira. O que eles fazem é “contextualizar” as barbaridades que cometeram, inserindo a sua "luta" num cenário de dez quinze anos à frente, de tal forma que fica parecendo que eles eram a turma do Diretas já. Que foi de meados dos anos oitenta para frente.
Seus atos, aqueles dos quais eles se vangloriam hoje em dia, estavam entre meados dos anos 60 e começo dos 70. Dão um pulo do gato, para dizer na cara dura que lutaram pela democratização do país. Vá lá, juntaram-se a essa luta nos anos oitenta. Mas o que fizeram antes, tem outro nome. Eles eram terroristas. Mas se diziam guerrilheiros. Rebeldes. O mesmo que fazem hoje com as FARC. Que para eles não são terroristas. São insurgentes, revolucionários e quetais.
Vou mostrar isso com dois textos, um de alguns anos atrás e outro publicado ontem, no blog do Zé Dirceu. Este, uma entrevista com Genoíno, que conta todo faceiro a sua versão sobre sua prisão. E aquele, o antigo, do homem que o prendeu, o coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel. Eu o publiquei na íntegra, uns anos atrás. Está arquivado na Câmara dos Deputados federais. A imprensa, então conivente com o lulo-petismo, naqueles bons tempos antes de estourarem as primeiras lambanças da cumpanherada não o fez. Publicou notas dizendo que o militar “torturador” (mentira) fora levado ao Congresso para discursar. É parte dele o relato que está aí na abertura desta matéria.
Ficou muito grande, mas vale a pena. A segunda parte, a outra versão da prisão do Genoíno, parece aventura. E na primeira parte, a entrevista dada ao Zé Dirceu, fica demonstrado que quando esses petistas da gema estão à vontade, não cuidam de esconder que a lutinha armada deles não era contra a ditadura militar, mas a favor da ditadura do proletariado, é assim que falava a cartilha deles. Os modelos eram as revoluções de Fidel e Mao. Tudo faladinho da silva, pelo Genoíno, confirmando a “pergunta” de Zé Dirceu. Em frente.

A entrevista ao Zé Dirceu
Zé Dirceu - Você foi para a guerrilha obedecendo a decisão política do partido, ou também julgava a luta armada a opção adequada?
Genoino - A direção nacional do ME, da qual eu fazia parte, vinculada ao PCdoB tinha um debate sobre os caminhos da revolução no Brasil: faríamos a luta armada na cidade ou no campo? O PCdoB tinha a estratégia de guerra popular prolongada, de construir bases de apoio no campo.
Zé Dirceu - Inspirada na revolução chinesa, em Mão Tse-Tung não é ?
Genoino - Sim, (confirmando o que falo aí acima e sempre) uma estratégia influenciada pelas revoluções chinesa e vietnamita. Era a idéia da guerrilha rural com bases de apoio no exército popular camponês, que organizaria áreas libertadas, com as quais se faria o cerco das cidades pelo campo. Como na cidade o adversário era muito forte, nós tínhamos que ir para o campo, onde ele era fraco. Essa estratégia conduziu a preparação da guerrilha rural.
Zé Dirceu - Nessa situação é que você pediu para ir para o Araguaia ?
Genoino - Não pedi para ir para o Araguaia. Disse à direção do PCdoB que estava à disposição para ir para a guerrilha rural. Não sabia para onde ia. A minha decisão foi porque a militância na cidade estava cada vez mais sufocada. Fui para me preparar e fiquei lá no Araguaia dois anos, até "cair" (ser preso).
Zé Dirceu - No dia que começou a luta você “caiu” ?
Genoino - “Cai” 6 dias depois. Aliás, está fazendo 36 anos da minha prisão hoje - fui preso no dia 18 de abril de 1972. A minha prisão está muito bem relatada no livro "O nome da morte" no depoimento de um pistoleiro, que tinha 17 anos. Ele me deu um tiro no braço (???). Foram pistoleiros que me prenderam e à tarde é que chegaram os militares. Eu estava procurando o meu pessoal que já tinha fugido.

Fui preso na mata, no Sul do Pará. A fotografia em que apareço algemado é no Bico do Papagaio, na árvore em que fui preso por esse pistoleiro que me conhecia (onde indícios do tiro??). Os pistoleiros conviviam comigo. Só que eles já estavam trabalhando para o Exército. Eu estava sozinho, procurando o meu pessoal e fui preso nesse lugar em que tinha perdido o contato com o grupo da guerrilha. Não sabia onde estava o pessoal. O meu grupo verdadeiro, permanente, estava em outro lugar, já tinha fugido.
Fiquei 10 dias preso como um camponês, um lavrador que tinha ido ao Araguaia por causa da Tranzamazônica. Eu tinha roça, casa, tudo direitinho. E a história colou até eu chegar em Brasília e ficar diante do famoso album de Ibiúna. Aí colocaram-me no pau de arara e me confrontaram com aquela foto (de Ibiúna) perguntando "quem é esse ?" Para mim, a sensação foi como se um edifício de 10 andares caísse sobre a minha cabeça.
Zé Dirceu - Como avalia hoje, 40 anos depois, a sua opção e a dos outros pela luta armada ?
Genoino - Não podemos fazer um julgamento moral. O julgamento tem que ser político. Considerando a época, os anos de 1964 e 1968, o processo revolucionário no Brasil e no mundo, eu diria que politicamente era muito difícil não se fazer aquela opção. Ela reflete as contingências históricas daquela era. Foi uma imposição, não uma escolha. Claro, teve escolha, ninguém era obrigado a ir. É bom lembrar que em 68, nós trazíamos o exemplo da morte do Che na luta armada. Ele era e até hoje é herói. Havia, também, o exemplo heróico do Vietnã, o exemplo libertário e humanista da fase áurea da revolução cubana. Era o auge da influência das idéias socialistas. A luta armada era a situação que se colocava para aquela vanguarda social e política.
(Podemos ver, nesta última resposta, que para comunista falar e desfalar é a mesma coisa. ”Foi uma imposição, não uma escolha”, disse Genoíno e Dirceu tirou daí um olho, realçou na chamadinha que fez lá no começo da matéria dele. Mas no mesmo parágrafo Genô continua: “claro, teve escolha, ninguém era obrigado a ir”)

A versão do militar que prendeu Genoíno
Temos agora a íntegra do que falou o Cel. Lício Augusto na sessão da Câmara. O texto aqui postado está registrado da Câmara dos Deputados. E lá embaixo, no final, dou o endereço de arquivo meu, onde ele está na íntegra, acesso direto e livre. É dele que tirei o primeiro parágrafo dessa matéria, contando o que a turma do Genoíno fez. Como mataram o garoto na frente da casa da família, na presença de vizinhos.
Vamos lá, o coronel Lício contando:
"Nós estávamos andando no meio da mata e esse elemento vinha pela trilha. Nós nos agachamos e, nisso, veio aquele elemento forte, com chapéu de couro, mochila nas costas e facão na cintura. Então, quando ele chegou no meio do nosso grupo, eu dei a ordem: Prendam esse cara!
Não sei, não posso me lembrar, se foi o Cid ou se foi o Cabo Marra que pegou o Genoino. Esse elemento era o Geraldo, posteriormente identificado como Genoino que naturalmente está me olhando agora. E eu tirei os óculos justamente para ele me reconhecer, porque da minha cara ninguém esquece, principalmente com aquela cara que eu estava na mata, depois de vários dias passando fome e sede, sujo, cheio de barba. Mas é a mesma cara. É o mesmo olhar da hora em que eu encarei ele e disse: Seu mentiroso! Confesse! Você não tem mais alternativa.
Por que eu descobri que o Genoino era guerrilheiro? Ele se dizia Geraldo e se dizia morador da área. Claro: elemento na área, suspeito, eu mandei deter. Mesmo algemado e com tudo nas costas, uma mochila pesada e grande, ele fugiu. O Cabo Marra deu três tiros de advertência, e ele parou. Mas não parou por causa da advertência, parou porque se emaranhou no cipoal, e o pessoal foi pegá-lo.
Eu perguntei: Por que você está fugindo? Nós apenas estamos querendo conversar com você. Para você não fugir, vamos ter de algemá-lo. Eu sou morador disse ele.
Eu deixei o pessoal especializado em inquirição conversando com o Genoino, até então Geraldo. O pessoal inclusive está presente um desses companheiros, o Cid conversou bastante tempo com o Genoino, quando o Cid veio a mim e disse: Comandante, não tem nada, não. Está bom respondi. Como eu já estava há muito tempo no mato, já tinha resolvido intimamente a levar o Genoino preso para Xambioá, mas não falei que essa era a minha determinação. Peguei a mochila dele.
Havia um elemento na minha equipe que era especialista em falar com o pessoal da área, já falecido, um elemento excepcionalmente bom. Rendo minhas homenagens a João Pedro do Rêgo. (Palmas.) O João Pedro, apelidado por nós de Jota Peter ou Javali Solitário, onde estiver estará escutando. João Pedro era um homem que falava com o matuto, com o pessoal da área, porque eu, na minha linguagem urbana, não era entendido nem entendia o que eles falavam. O Javali veio a mim e disse: Ele não tem nada. É morador da área. E falou-me o resto que ele tinha falado.
Eu, como homem de selva, peguei a mochila do Geraldo e comecei a abri-la. Tirei pulôver, rede e um bocado de bagulho da mochila do Geraldo, quando encontrei um tubo de remédio no fundo da mochila. Ao pegar aquele tubo e olhar para o Genoino, vi que ele estava lívido, pálido. Eu ainda lhe disse: Companheiro, fique tranqüilo porque nós não vamos fazer nada com você, você é morador da área. E abri o tubo. Lá encontrei material típico de sobrevivência linha de pesca fina, anzóis. Era material típico de sobrevivência. Como eu havia feito um curso e só sabia teoricamente sobre o assunto, aquele exemplo prático, em um local de difícil acesso na selva amazônica, eu me interessei. À medida que eu ia puxando aquelas linhas o Genoíno aliás, o Geraldo ia ficando mais desesperado.
E quando eu tirei o tubo, olhei para ele, e ele estava branco como papel. E lá no fundo eu vi um papel pautado, de caderneta, dessas que todo dono de bodega na área anotava as suas vendas. Cortei uma talisca do meu lado, puxei o papel e lá estava a mensagem do Comandante do Grupamento B da Gameleira, o Osvaldão, para o Comandante do Grupamento C, Antônio da Dina. Estava lá a mensagem que o Genoino transportava para o Antônio da Dina. Era uma mensagem tão curta que ele, como bom escoteiro que era, poderia ter decorado, porque até hoje, mais de 30 anos passados, eu me lembro do que dizia essa mensagem, mas eu quero que ele mesmo diga o que constava nessa mensagem.
Era uma dúzia de palavras em linguajar militar, de próprio punho do Osvaldão, que era o Comandante do Grupamento B da Gameleira, o grupamento mais perigoso da guerrilha, como constatamos no desenrolar das lutas. Foi o grupo que matou o primeiro militar na área. Antes de qualquer pessoa morrer, o grupo do Osvaldão matou o Cabo Rosa, Odílio Cruz Rosa. Depois de esse Odílio Cruz Rosa ser morto, eles mataram mais 2 sargentos e fizeram muito mal aos militares que nada sabiam até então. Só quem sabia era o pessoal de informações. E eu era da área de informações, embora eu operasse à paisana.
Então, o Genoino foi mandado para Xambioá preso. A essa altura ele já deixou de ser detido para ser preso, e falou tudo sobre a área. Quando eu olhei para ele e disse: Você não tem mais alternativa porque aqui está a mensagem. Ele disse: Eu falo. Eu disse: É bom você falar.
Genoíno, olha no meu olho, você está me vendo. Eu te prendi na mata e não toquei num fio de cabelo seu. Não te demos uma facãozada, não te demos uma bolacha, coisa que me arrependo hoje. (Palmas.). Um elemento da minha equipe, fumador inveterado, abriu um pacote de cigarro, aproveitou aquele papel branco do verso, surgiu um toco de lápis não sei de onde, e o João Pedro começou a anotar o que o Genoíno falava fluentemente, nervoso como estava, começou a falar. Eu me levantei do chão, fui até o córrego meio próximo para beber um pouco dágua. Voltei, o papel estava cheio, toda composição da guerrilha nomes, locais, Grupo C ao sul, Grupo B da Gameleira, perto de Santa Isabel, e Grupo A perto de Marabá. Eram os três grupos efetivos que eles presumiam completar 30 homens por grupamento e mais um grupo militar comandado por Maurício Grabois. Eu peguei aquele papel e ainda comentei com ele: pô, meu amigo, tu é um cara importante desse negócio aí, hein? E mandei o Geraldo para Xambioá. Ele foi recolhido ao xadrez, posteriormente enviado a Brasília em seguida, três, quatro dias, não me lembro. Veio o veredicto da identificação: o guerrilheiro Geraldo é o José Genoíno Neto, presente em frente ao vídeo, olhando para os meus olhos. Eu sempre tive olhos arregalados, não foi só lá na mata, não. Os meus olhos sempre foram arregalados, principalmente em combate. Triste notícia veio depois. O grupo do Genoíno prendeu um filho do Antônio Pereira, aquele senhor humilde, que morava nos confins da picada de Pará da Lama, a 100 Km de São Geraldo... Continua lá no começo desta matéria. O texto integral está aqui

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