terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Colômbia - Valores Invertidos

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A vergonhosa e inoportuna manifestação, sem propósito e incompatível com os fatos, além do histórico do delinquente, apresentam muitas questões a uma sociedade onde ainda se busca exemplo em bandidos e corruptos.
As imagens falam por si: centenas de pessoas acompanham o féretro de Luis Orlando Padierna Peña, vulgo "Inglaterra", chefe do "Clã do Golfo", na tarde de segunda-feira (27/11/17) no município de Carepa. Alguns assistentes levam balões brancos e vestem camisetas onde se lê: "Viverás para sempre em nossos corações". A Polícia Nacional, que abateu na semana passada a esse conhecido delinquente, vigia para que não haja distúrbios nem excessos entre a multidão.
Já no sábado e domingo anteriores havia ocorrido manifestações similares quando o cadáver chegou a essa localidade do Urabá Antioquenho. Caravanas de automóveis e motocicletas a partir das quais era louvada a figura de um homem com um prontuário revelador de suas realizações e qualidades: aparecia na Lista Clinton por operações financeiras de lavagem de dinheiro; estava pedido em extradição para os EUA por tráfico de cocaína; em 2001 esteve preso por homicídio e fugiu da cadeia; liderava a "Frente Carlos Vásquez" do Clã do Golfo e se mudou para a fronteira com Venezuela para estabelecer corredores de drogas e outras atividades ilícitas da organização.
Em sua perseguição, em agosto de 2015, um helicóptero da Polícia caiu na zona rural de Carepa, causando a morte de dezessete agentes. Mais ainda, sendo parte da cúpula dessa quadrilha era, também, responsável pelo "plano-pistola" [NT: série de assassinatos seletivos] que entre abril e maio passados deixou dez policiais mortos e 37 feridos.
¿O que estará acontecendo com um país onde um grupo considerável de cidadãos vai ao enterro de um criminoso tão daninho e perigoso, para despedi-lo como se fosse um herói?
A primeira explicação que surge é a universal, histórica e cultural, da fascinação e identificação de comunidades e cidadãos com vilões e anti-heróis com máscaras de benfeitores dos despossuídos, que protagonizam resistências e atos de violência e desacato contra outros poderes e setores, legais ou ilegais.
Na história da Colômbia proliferam figuras surgidas de levantes e projetos contra-estatais e paraestatais, e de fenômenos de delinquência que, em diferentes momentos e conjunturas, obtiveram a atenção, simpatia ou submissão de camadas da população, nem sempre marginais periféricas ou desatendidas.
A romaria por "Inglaterra" não nos mostra somente pessoas de estratos afetados pela pobreza e a miséria. Vimos alguns comerciantes e outros urabaenses cuja esfera sugere identidade mais preocupante, com os delitos e a ilegalidade.
É nessa Colômbia em que a bandidagem e a corrupção fizeram carreira como estados de "normalidade e enriquecimento aceitáveis" e que motivam admiração e reflexo. Crimes que não provém só de atores fora da lei, mas também de dentro da ordem e até mesmo do Estado.
A multidão que carrega e corteja o ataúde de um delinquente de larga carreira obriga a pensar nas responsabilidades institucionais públicas e privadas, na tarefa individual e coletiva de liderança e no desafio como sociedade e Estado que temos, para desmontar tantos valores invertidos e essa atitude de anomia (indiferença e passividade) ante o ilegal e o antiético.
Não podem ser pabloescobares, carloscastaños, inglaterras e outroras timochenkos”, nem tampouco os fraudadores do erário, os que convoquem e sirvam de guia, exemplo e inspiração para um país necessitado de dar o salto para a modernidade, os direitos e à paz, em uma democracia legítima.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO:  esta inversão de valores não é privilégio dos colombianos. Por aqui, também temos uma grande parcela da população que não tem pejo em demonstrar sua simpatia para com bandidos de toda espécie. Os maus exemplos vão desde os que - apesar de todas as provas, jurídicas ou não - se negam a aceitar a culpa de grandes ladrões do erário, chegando a nomina-los de "guerreiros do povo brasileiro", até os traficantes e chefes de milícias que se adonam das favelas por todo o país, com a cumplicidade da população que se nega a auxiliar as autoridades omitindo informações que as levem a esses criminosos chegando aos "protestos" por ocasião da prisão ou morte desses bandidos. A cultura popular é dinâmica, e na América Latrina essa dinâmica conduz à estrumeira!
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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Os Contêineres com Cocaína Colombiana

por Javier Alexander Macías
Nos últimos 15 dias de julho passado Jairo Chaverra(*) andou pelas ruas de Cartagena com três escoltas, seis pistolas na cintura e uma sentença sobre suas costas: ou pagava a “seus sócios” os 820 quilos de cocaína que a Polícia lhe apreendeu, ou sua esposa o iria visitar em qualquer cemitério da costa colombiana.
A carga “caiu” por um defeito na solda do piso do contêiner onde seria transportada a “mercadoria” e os policiais descobriram a tramoia. Eram 440 quilos de cocaína que terminariam em um dos portos da Europa, inundando de pó branco as ruas das cidades aditas ao químico mortal.
"O resto da encomenda estava no que chamamos 'creche', que é uma casa próxima aos portos, mas com a queda do primeiro carregamento [os policiais] chegaram aos 380 quilos que tínhamos no esconderijo", diz Jairo. 
Após a apreensão veio a captura, uma ameaça dos "narcos", e um pacto de proteção de testemunhas com as autoridades que por enquanto o mantém fora da cadeia em troca de revelar as rotas e donos de carregamentos ilícitos que saem camuflados em contêineres desde os diferentes portos de Barranquilla, Santa Marta, Cartagena e Urabá para América Central e do Norte, Europa e Ásia.
Contaminar os contêineres 
Introduzir a droga em um contêiner é uma tarefa que só pode demorar entre cinco e oito minutos. Como em uma colonia de formigas, os obreiros dividem o trabalho para cumprir esse prazo, e se demorarem mais, os “contaminadores” correm o risco de serem capturados pela Polícia ou pela Armada (Marinha) e, assim, derrubar-se um império ilegal que segundo investigadores da Armada Nacional deixa um lucro de 890 por cento.
Desestimular e combater um negocio em cujo investimento se obtém ganhos tão altos é uma tarefa extremadamente difícil. As contas, obtidas pela Inteligencia da Armada e a Polícia, são sensíveis: toda a operação de compra e embarque de 100 quilos de droga ascende a um custo médio de 760 milhões de pesos (cerca de 760 mil reais). Se essa droga logra penetrar no mercado europeu, o valor da venda final será de $9.314.250.000 (aproximadamente 9,3 milhões de reais). Descontando as comissões estimadas em mais de $1.820.512.500 milhões de pesos, o lucro bruto para o narcotraficante é de 7,493 bilhões de pesos (ou 7,4 milhões de reais).
Em um vídeo obtido por El Colombiano e gravado em uma missão de infiltração da Armada, seis pessoas, em uma operação relâmpago, metem 20 quilos de cocaína em um contêiner carregado de pratos plásticos. No trabalho, dois homens rompem um lacre que indica que aquela carga já havia sido revisada e tiram parte das caixas, o manobrista de uma grua eleva os que romperam o lacre até a parte superior do caminhão, outro sujeito lhes passa duas sacolas negras com “a mercadoria” para metê-las no mais profundo da carga legal, e um operador logístico de aduanas tranca as portas do contêiner e põe outro lacre falso de fiscalizado, antes de que o contêiner seja embarcado para a Europa.


É justamente aí onde entra Jairo. Na hierarquia do narcotráfico, seu papel é de “coordenador”. Sua função primordial consiste em “contaminar” os contêineres de frutas ou produtos que serão exportados com os carregamentos de cocaína. Este trabalho, diz ele, lhe fez ganhar grandes quantidades de dinheiro, mas também “perder muita grana quando cai a encomenda” e tem que pagar à vista ou com sua vida. Seu último ganho bruto, assegura, foi de $500 milhões de pesos.
Eu tenho gente que são operadores logísticos de empresas de aduanas que trabalham comigo. Eles me informam quais contêineres estão disponíveis, qual é o destino, o percurso e em qual barco serão levados”, comenta Jairo, e acresce que com ele trabalham policiais antinarcóticos que lhe passam informação para que o contêiner seja contaminado sem inconvenientes.
Além disso, consegue as planilhas de viajem, as rotas, os lacres que serão substituídos quando a droga esteja camuflada nos carregamentos legais de empresas que desconhecem que junto a seus produtos vai uma carga ilegal.
Para confrontar a versão de Jairo, El Colombiano buscou a versão da DIAN encarregada da Sociedade de Intermediação Aduaneira, SIA, onde segundo o “coordenador” se conseguem os lacres e as planilhas e de lá nos remeteram à Polícia Antinarcóticos. Também buscamos a versão da diretora de Aduana a quem enviamos as perguntas, mas não foi possível a entrevista com a funcionaria.
Ainda buscamos a versão da Polícia Antinarcóticos sobre a denuncia de policiais implicados e a segurança nos portos. Em três ocasiões se conversou com o General José Ángel Mendoza, Chefe dessa unidade, que adiou o encontro alegando compromissos de suas funções policiais. Depois de oito chamadas e mensagens no celular, não respondeu ao solicitado. 
Revisão, ponto vulnerável 
A rota mais cômoda para este elo da cadeia do narcotráfico é Cartagena-Puerto Limón, Costa Rica, porque segundo Jairo, “a Polícia e outras autoridades civis de lá trabalham [aceitam] mais fácil com cargamentos de cocaína que as mesmas autoridades colombianas”.
Esconder droga entre carregamentos legais que sairão do país não é um assunto novo, sem dúvidas, se converteu em uma das modalidades mais exitosas para tirar a coca da Colômbia, pois como explica o Contra-Almirante da Armada, Francisco Herrera Leal, no mundo se movem cerca de 600 milhões de contêineres ao ano, e destes, só se revista uns 12 por cento, quer dizer, 72 milhões. (Dados do Banco Mundial registraram que em 2014 o movimento foi 679.254.658).
Na Colômbia a situação não é diferente. Segundo o alto oficial naval “a carga comercial legal usa a mesma rota da ilegal. Cartagena é um dos portos que mais move carregamentos, cerca de 7 milhões de toneladas (segundo a Superintendência de Portos e Transporte foram 7.881.745 em exportação em 2016), e dessa grande quantidade se inspeciona cerca de 2 por cento (140.000), e ao fazer isso, realmente temos uma grande brecha para que saia mais droga”.
Para contrastar este fenômeno, diz o Contra-Almirante, estamos realizando trabalhos aliados com a Polícia Nacional.
Quando avaliamos o tema portuário nos chama a atenção essa grande quantidade de droga apreendida pelas agencias da Europa, e sobretudo em um porto muito específico que é Amberes (Bélgica). Estamos fortalecendo nossas capacidades nos portos para entender o significado do padrão dos contêineres, o quê significa o padrão de empresas e com base na Inteligencia tratar de focalizar nosso esforço para um tipo de contêineres que, com a Polícia, possamos inspecionar e obter resultados”.
Herrera explica que graças à cooperação internacional puderam cruzar contas com agencias estrangeiras como a aduana francesa, os alemães, o MAOC (Maritime Analysis and Operationnns Centre Narcotics em inglês) de quanta droga apreendida na Europa era proveniente da Colômbia e estabeleceram que entre 2015 e 2016 foram confiscadas 30 toneladas.
Segundo o Almirante, com dados de investigação do SIMCI e EUA sobre a base de quantidade de cultivos de uso ilícito que há na Colômbia, e partindo do cálculo de que um hectare de coca produz 2 quilos de cloridrato de cocaína, estimaram que em 2016 houve uma produção de 646 toneladas no país, 160 das quais possivelmente saíram pelo Caribe. Continuando com as contas, da possível saída das 160 toneladas de drogas se capturaram só 30, um porcentual de 18,75 por cento de eficiência.
Há que seguir trabalhando e potencializando as capacidades de Inteligencia. Temos especialistas em veleiros, em lanchas go fast, mas nos temas de contêiner e portos ainda estamos elaborando este conhecimento e temos que ser mais fortes nisto para lograr neutraliza-lo”, conclui o Contra-Almirante Herrera. 
As outras modalidades 
Orlando(*) é um dos investigadores mais experientes da Polícia no tema de narcóticos no mar. Em suas pesquisas aos narcos descobriu que entre as formas de carregar coca, os donos dos carregamentos tem varias modalidades. Uma delas é a que as autoridades chamam parásitos (parasitas), ou seja, prendem na parte física da embarcação e abaixo da linha d'água, barriletes ou outros elementos carregados com droga.
Sem dúvida, para o investigador há outra modalidade que vem crescendo: o veleiro. “Eles utilizam tudo que sirva para navegar. Descobrimos que há velejadores que vem de outros países, que em teoria estão fazendo turismo e chegam provisoriamente para abrigar-se ou para logística, mas tem que ver com o narcotráfico.
Orlando afirma que no acompanhamento feito a estas pequenas embarcações e através do intercambio de informação com agencias internacionais, nos países de registro dos veleiros eles eram dados por perdidos. Esta é a importância da comunicação com essas agencias para obter melhores resultados”. 
Uma luta que não para 
O último contêiner contaminado com uma grande quantidade de droga caiu faz alguns dias (4 Nov 17). Em um carregamento de peles de animais que saía para a Europa, a Polícia Antinarcóticos e a Armada apreenderam 1.891 quilos de cocaína. A procura durou quatro horas até que no fundo da carga encontraram a coca recoberta com borracha para o caso de ter que lançá-la ao mar por pressão das autoridades.
A droga ia metida em uma carga de peles porque estas geram um odor característico que evita que possa ser detectada por nossos cães. Sem dúvida, a pericia dos policiais do porto foi fundamental para descobri-la”, explicou o General José Ángel Mendoza, em entrevista coletiva de imprensa.
O oficial indicou que este carregamento estava marcado com diferentes logotipos, pertencentes a vários grupos que se uniram para envia-lo, modalidade que vem sendo utilizada e que pode pertencer a quadrilhas como o “Clan del Golfo”, os “Pachenca” ou até mesmo as dissidências das FARC que permaneceram com o negócio da coca.
Jairo, o “Chacho”, o coordenador de remessas que acumulou uma fortuna contaminando contêineres com drogas, assegura que desta vez não teve que ver com a delação deste carregamento. Por enquanto, passa seus dias em uma das grandes cidades da Colômbia evitando a execução da sentença de morte que seus inimigos lhe impuseram.
OBS: (*) Nomes trocados por segurança.

EM RESUMO:
Os narcotraficantes usam os portos da Colômbia para a coca produzida, aproveitando o baixo controle existente neles. A cocaína é camuflada em contêineres de frutas ou outras mercadorias.
Sequência de ações:
1. Compra de 100 quilos de cocaína que serão enviados ao exterior por 500 milhões de pesos.
2. Pagar 100 milhões de pesos ao coordenador para contaminar o contêiner com os 100 quilos de coca.
3. A reunião e o transporte dos 100 quilos de cocaína custa mais 12 milhões de pesos
4. Compra de planilhas e documentos duplicados para tirar os 100 quilos de droga custa mais 3 milhões de pesos
5. Compra de instrumentos vários como serras, martelos, soldaduras, tem um costo de um milhão
6. Adquirir os lacres que substituirão os verdadeiros do contêiner custa 2 milhões de pesos
7. O pagamento da contaminação do contêiner no porto custa 12 milhões de pesos
8. O pagamento aos “donos” da zona (quadrilha) donde sairá o embarque é de 130 milhões de pesos
9. O investimento total de um narcotraficante para tirar a droga do país é de 760 milhões de pesos.

- Um carregamento de coca enviado desde um porto da Colômbia demora cerca de 25 dias para chegar à Turquia.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
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domingo, 26 de novembro de 2017

A Tragédia do ARA San Juan - A Lição Que Fica

Junto com a enorme dor que nos golpeou nas últimas horas, se acenderam centenas de luzes vermelhas e a sociedade argentina começou a fazer perguntas que deveriam ter sido formuladas há décadas.
Chegará, é inevitável, o tempo da prestação de contas, da metafórica "entrega de faturas", da busca implacável de responsáveis. E posso afirmar, quase com a mesma certeza, que essa rendição de contas se limitará naqueles que usam um quepe branco com escudo da Armada.
Durante décadas, nós que temos tripulado e comandado navios de guerra no mar, tivemos que lutar contra a apatia, a indolência e a ignorância daqueles que tomavam as decisões sobre nosso orçamento.
Portanto, sair ao mar implicava uma dose às vezes sobre-humana de vontade, de amor pela camiseta, de orgulho profissional e até de rebeldia.
Aprendemos a suprir a falta de recursos com criatividade, pedir equipamentos ou sobressalentes ao navio do lado, conseguir um reparo de última hora nas oficinas, maximizar a imaginação para resolver com ideias aqueles problemas que só se resolvem com recursos materiais e finalmente, por que não, amarrar com arame e rezar para que aguente.
De fato, esta criatividade voluntariosa e às vezes voluntarista, passou a ser um dos atributos mais valorizados nos jovens oficiais ou suboficiais da Armada.
De vez em quando nos perguntávamos: "¿E se tentarmos com dinheiro?", sabendo que lamentavelmente era uma pergunta retórica.
Simplesmente, a Nação não nos atribuía um papel relevante, em consequência não havia respaldo orçamentário e ao final, a opção era assumir os riscos ou paralisarmos definitivamente.
Esta situação é mais extrema nos meios de operação mais arriscada: aviões e submarinos. Aviadores navais e submarinistas devem ser muito mais rigorosos porque suas vidas estão em jogo de modo muito mais evidente e imediato.
Esta situação penosa se estendeu durante anos. Não ocorreu durante algum governo em particular, ainda que seja evidente que algumas gestões nos castigaram mais que outras.
Creio que mais de 90 por cento de nosso pessoal iniciou sua carreira depois da restauração democrática, porém a renovação vegetativa não importa muito quando a desconfiança é virtualmente inata e nos alcança pelo simples fato de ser o que queremos ser.
Agora aí está. Agora perdemos um submarino com 44 almas a bordo.
O mais doloroso é a perda de jovens vidas, certamente. Porém as insinuações sobre a irresponsabilidade implícita na operação de um navio em condições precárias é quase tão dolorosa, por  serem essencialmente injustas. É assim para aqueles dos quais conhecemos o enorme esforço, carinho e compromisso com que eles levaram adiante sua vocação. Nós sabemos porque sentimos o mesmo.
Como disse linhas acima, esta tragedia é de todos ainda que a responsabilidade só recaia em alguns.
Quando a carreira de um militar é interrompida por algum erro severo, ocorre algo especial: esse homem perde sua profissão definitivamente, sem chance de voltar atrás. Isto ocorre também com policiais e gendarmes.
Isto não é uma crítica nem uma queixa, é um dado da realidade. Nos matam com um único tiro, e muitas vezes "pelas dúvidas". E isto é o que vai ocorrer agora. Afirmo isto porque já começou a ocorrer.
Durante a última semana de pesadelo que viveram os argentinos, em particular os marinheiros, se produziram "fricções" entre militares e políticos.
¿Por que ocorrem? Porque pensamos de maneira distinta, cada um com sua própria estrutura de valores, ideais e objetivos legítimos.
Minha ética profissional me impõe, por exemplo, pedir minha demissão se o navio que comando sofre uma quebra, colisão ou incidente grave. Depois vamos ver se sou culpado, porém minha responsabilidade me exige o proverbial "paso al costado" [NT: "dar passagem"] ainda que seja provisório.
Agora, nossos dirigentes se dedicarão à lucrativa tarefa de "estabelecer responsabilidades". Gostaria de perguntar se irão buscar em suas casas os ministros de Defesa dos últimos 50 anos, ou se vão questionar, ainda que seja frente ao espelho, suas próprias decisões ou a falta delas.
Esta semana foi dolorosa para todos os marinheiros argentinos, mas especialmente para aqueles que aspiram continuar com sua incipiente carreira. Seu futuro é incerto e eles sabem disto.
Vozes tão estridentes como ignorantes falam hoje com equívoca fartura de conceitos técnicos que se leva uma vida inteira para compreender. Eram diretores técnicos há dois meses, peritos forenses no mês passado e submarinistas experientes hoje. É inevitável, mas doloroso, especialmente quando desde um microfone questionam atitudes profissionais sobre as quais não estão nem remotamente capacitados para avaliar.
Castiguemos os culpáveis, está bem, ainda que só seja a alguns. Se não podemos castigar aos que deveríamos, ao menos façam-lo com aqueles mais facilmente castigáveis.
Mas depois, quando se aplaquem os ânimos e se curem as dores da alma, saibamos que apesar das adversidades, pese à injustiça de pretender que suportem os erros de mais de 40 anos, pese à indolência e a apatia de uma sociedade que deveria velar por eles, segue havendo jovens argentinos cuja principal aspiração é defender a sua Pátria no mar.
Sua Pátria deveria permitir que o façam.
(*) Capitão de Navio (Inativo)
 e veterano da Guerra das Malvinas.
Fonte: tradução livre de Tribuna de Periodistas
COMENTO: Que essa tragédia que atingiu os Submarinistas Argentinos e o próprio povo argentino, sirva de exemplo aos dirigentes daquele país e de outros, particularmente do Brasil. Distribuir tarefas sem a devida distribuição de meios é ato de extrema irresponsabilidade!

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Começa a Comissão da Meia Verdade na Colômbia

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É legítimo indagar e examinar a qualidade dos membros da Comissão da Verdade, sem desqualificar de antemão o trabalho do organismo, recém iniciado. Uma verdade parcial e tendenciosa não é o que Colômbia quer.
Imagem da Internet
Já estão designados os onze membros da "Comissão para o Esclarecimento da Verdade, a Convivência e a Não Repetição", organismo criado pelo Governo colombiano e as FARC. Atendendo o convencionado em Havana, esta Comissão, que como diz seu nome, além da busca da verdade que também deverá servir para a convivência, terá como propósito "conhecer a verdade do que ocorreu e contribuir ao esclarecimento das violações e oferecer uma explicação ampla a toda a sociedade sobre a complexidade do conflito". E, em outra função que não se deve ignorar, deverá "promover o reconhecimento das responsabilidades dos que participaram direta e indiretamente no conflito".
A Comissão está prevista para ser um mecanismo independente, temporário, imparcial e de caráter extrajudicial. A imparcialidade foi o valor mais reivindicado, junto com a idoneidade moral e a trajetória ética dos comissários. Por enquanto, a indicação do jesuíta Francisco de Roux - de alta dimensão espiritual, moral e acadêmica - como presidente da Comissão, permite que se tenha a esperança de que os objetivos de verdade e reconciliação possam ser cumpridos.
A propósito, deveria ficar claro que é perfeitamente legítimo não só examinar, senão questionar algumas nomeações nessa Comissão da Verdade. O fato de que tudo isto se faça dentro do que se denominou "valor supremo da paz" não nos exime da liberdade de opinar. Não se deve tachar de inimigos da paz os que, com bons argumentos e documentos em mãos, evidenciam que alguns comissionados estiveram próximos (aí estão seus escritos hagiográficos sobre os chefes guerrilheiros, seus panegíricos ao que denominam "luta subversiva" ou suas opiniões identificando-se com "os princípios das FARC) às teses daqueles que também terão que comparecer perante essa entidade para reconhecer suas responsabilidades pelas atrocidades cometidas contra o povo colombiano.
A verdade de décadas de conflito é um grande desafio. Cabe aqui a figura do espelho quebrado em milhares, milhões, de pedaços, que terá que ser recomposto em uma explicação coerente que ofereça compreensão em vez de lavar culpas. Um trabalho de filigrana, sem preconceitos mas com claridade, para que essa verdade que se reclama não seja incompatível.
O que se diga ante a Comissão da Verdade não terá efeitos judiciais nem poderá ser usado em processos penais contra quem ofereça seu testemunho. Ela deverá, como diz o acordo, cotejar e verificar a qualidade da informação e identificar as que sejam falsas. É uma forma extraprocessual para determinar a verdade, já que a outra, a judicial, corresponderá determina-la à Jurisdição Especial de Paz, em cuja imparcialidade também teremos que confiar de boa fé.
Uma vez constituída, a Comissão terá três anos para executar os treze pontos que compõem o mandato conferido, que inclui o de "determinar as responsabilidades coletivas do Estado, incluindo o Governo e os demais poderes públicos, das FARC, dos Paramilitares" e dos demais grupos ilegais violentos, onde entendemos esteja incluído o ELN.
Não se deve prejulgar nem desqualificar desde já o desempenho da Comissão. Haverá tempo para avaliar sua missão. Entre outras coisas, porque seu funcionamento e informe final não excluem que, por sua parte, a academia, os historiadores e os analistas independentes sigam cumprindo suas tarefas de investigação e contribuam também para a formação de um juízo equilibrado e justo sobre o que foram estas décadas de atrocidades e iniquidades contra uma cidadania que nem apoiou nem participou, só foi vítima, dos crimes dos grupos ilegais.
Fonte: tradução livre de El Colombiano 
COMENTO:  ainda estou torcendo pelo sucesso desse tal "pacto de paz" enfiado goela abaixo da população colombiana - igual ao plebiscito do desarmamento brasileiro, imposto de forma oposta ao que foi decidido na votação - pelo seu presidente Juan Santos. Aos desatentos, houve um escrutínio sobre o tal tratado de paz, que foi rejeitado pelos votantes, mas foi "aprovado", posteriormente, pelo Congresso colombiano. Como era de se esperar, os narcoguerrilheiros usaram a "boa vontade" demonstrada pelo dirigente colombiano para fazer lá o que os canalhas da "luta armada" brasileira fizeram por aqui: inserir-se na sociedade, difundir a imagem de bons cidadãos e assumir o poder com a complacência da população, além de se locupletarem às custas das burras e se vingarem de seus vencedores, transformando-os em delinquentes via Comissão da Calúnia. Tudo de acordo com os planos do Foro de São Paulo, que definha mas não morre. Infelizmente, não concordo com o otimismo do redator do editorial, particularmente quanto a isenção das colaborações dos membros da "academia, os historiadores e os analistas independentes". Esse pessoal historicamente se coloca ao lado dos criminosos que alegam lutar ideologicamente. A má intenção dos narcobandoleiros  colombianos já foi manifestada aqui, aqui, e aqui.

domingo, 5 de novembro de 2017

George Soros e Open Society Financiam a Nova Ordem Mundial

Quando, jovem e tardiamente, comecei a interessar-me pelo que acontecia no Brasil e no mundo, era pela imprensa que eu buscava informação e análise. Jornais, revistas e televisão eram as minhas fontes. Se os meios de comunicação e os seus comentaristas eram disfarçadamente parciais, política e ideologicamente engajados, tal me escapava. Tamanha era força da imprensa e do mito da imparcialidade que leitores como eu, o leitor médio, éramos incapazes de identificar qualquer viés político de esquerda no conteúdo que nos era apresentado. O que lá estava escrito nas publicações ou dito em imagens na tevê era, portanto, a representação fiel da realidade.
Com o passar dos anos, era natural que eu e tantos outros achássemos que nossas opiniões individuais eram nossas e não, como de fato eram, meras reproduções da posição política de jornalistas, comentaristas, enfim, de toda a fauna conhecida como formadora de opinião.
Quando os diretores e operários de esquerda da imprensa brasileira decidiam que tal e qual assunto deveria ser objeto de exposição pública e debate, expunham-no de uma maneira que o conteúdo direcionasse e definisse a opinião do leitor ou do espectador. Ao esconder-se sob o falso manto da imparcialidade, a empresa jornalística enganava os seus consumidores ao maquiar a forma de apresentar a informação e ao colocar especialistas de esquerda que defendiam a sua visão de mundo como se ambas, opinião e visão de mundo de esquerda, fossem a verdade e não a sua imitação fraudulenta.
Se até poucos anos atrás essa postura passava incólume, hoje, graças ao bom Deus, uma parcela cada vez mais numerosa da sociedade brasileira está sendo exposta a essa imitação fraudulenta da verdade empreendida por parte da grande imprensa e de organizações cada vez mais atuantes naquilo que se chama de debate público, que nada mais é, como sempre disse um amigo, debate publicado.
Os representantes dessas organizações têm uma espécie de sala VIP em grandes jornais e emissoras de tevê. Não importa o que digam e defendam, contam sempre com a valiosa ajuda dos grandes canais de comunicação e assim também conseguem influenciar a produção artística das empresas, como programas de auditório, séries e novelas. Dessa forma, o telespectador é submetido a uma grade de programação revolucionária que gradualmente faz cumprir o seu intento de destruir a imaginação moral, de mudar mentalidades e, portanto, a sociedade.
Várias dessas entidades que gozam de prestígio na tevê e na grande imprensa brasileira são financiadas por um bilionário húngaro-americano que tem como objetivo promover uma engenharia social mundial que atenda a sua agenda ideológica e empresarial. Para isso, George Soros não economiza dinheiro nem esforços. Graças aos vazamentos de documentos feitos no ano passado pelo Wikileaks e pelo DC Leaks foi possível constatar a dimensão, ainda que parcial, dessa drenagem de recursos para organizações, partidos e políticos de esquerda em várias partes do mundo, dos Estados Unidos, passando pela Hungria até chegar ao Brasil.
Dias atrás, foi noticiado que Soros fez nos últimos anos doações que somaram US$ 18 bilhões para a sua organização Open Society Foundations, nome inspirado no famoso livro A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos (volumes 1 e 2), de Karl Popper, que deve estar se revirando no túmulo em virtude da homenagem.
Até mesmo para Soros essa doação para a sua própria fundação é algo impressionante e mostra a seriedade com que ele encara o trabalho desenvolvido pela Open Society. Como salientou o jornal de esquerda The New York Times, foi uma das maiores doações de dinheiro já feitas por um doador privado para uma única instituição nos Estados Unidos. Isso significa que haverá verba ainda mais farta para as esquerdas nativas potencializarem o trabalho revolucionário que já desenvolvem.
Nos Estados Unidos, há anos Soros é um dos maiores doadores do Partido Democrata. Na eleição presidencial passada, investiu muito dinheiro na campanha da candidata Hillary Clinton, que perdeu a eleição para Donald Trump. A vitória de Trump acendeu o alerta vermelho da organização, que passou a trabalhar com um “novo senso de urgência”, segundo disse ao New York Times o vice-presidente da entidade, Patrick Gaspard.
Aqueles documentos vazados no ano passado pelos sites Wikileaks e DC Leaks que eu mencionei mostraram o grau de influência de Soros sobre Hillary e o Partido Democrata, que receberam ambos cerca de US$ 25 milhões do bilionário para a eleição de 2016. Soros é, aliás, um dos maiores doadores de toda a carreira política de Hillary.
Como esse tipo de apoio nunca sai de graça e quem decide fazer o pacto uma hora terá de prestar contas a Mefistófeles (obrigado, Goethe), um dos e-mails vazados revelou que Soros, mediante um representante, enviou instruções a Hillary, então secretária de Estado do governo de Barack Obama, para intervir na política da Albânia, país onde ele tem negócios. Três dias depois da mensagem, o nome sugerido por Soros, Miroslav Lajcak, foi enviado pela União Europeia para mediar o conflito entre os rivais políticos albaneses.
Investindo o seu dinheiro de forma estratégica, Soros também teria orientado políticos do Partido Democrata para fazer valer seus interesses dentro e fora dos Estados Unidos, além de ter tentado manipular eleições na Europa. Ainda segundo os documentos vazados, através da Open Society, o bilionário financiou entidades em várias partes do mundo.
No Brasil e em outros países da América Latina, a Open Society injeta cerca de US$ 37 milhões por ano. A Fundação Ford, igualmente notória por financiar esquerdistas ao redor do mundo, destina US$ 25 milhões para organizações de esquerda de países latino-americanos.
Esse dinheiro só vai, porém, para iniciativas que atendam o grande projeto global de revolução social financiado por Soros, o que significa promover o aborto, a legalização das drogas e ataques sistemáticos a todos os costumes, tradições e instituições sociais que de alguma maneira ainda protegem a sociedade brasileira da ação revolucionária. Por isso, o apoio cada vez maior a grupos que usam o termo “mídia independente” para desenvolver de forma radical e inclusive pressionar o trabalho realizado pela grande imprensa.
Um desses projetos é a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que ficou conhecida nas manifestações de 2013 dizendo-se independente, mas que havia recebido US$ 80 mil da Open Society. Vinculado ao Fora do Eixo, entidade chefiada por Pablo Capilé, a Mídia Ninja inaugurou na semana passada a sua nova sede na região central de São Paulo. Para legitimar seu trabalho, reuniu a fauna e a flora artística de esquerda. Foi nesse evento que Caetano Veloso tentou ser humorista: “Algum conservadorismo é necessário. Pode não ser desejável, mas é necessário”. O cantor e compositor inaugurou com a frase um novo ofício: bedel do conservadorismo pátrio – mesmo que ele não faça ideia do que seja conservadorismo.
Outra entidade que atua na seara da produção de conteúdo é a Agência Pública, do esquerdista Leonardo Sakamoto, que em cinco anos recebeu mais de R$ 1 milhão da Open Society. É com os dólares de Soros que a Agência Pública diz realizar um “modelo de jornalismo sem fins lucrativos para manter a independência”. Independência similar à da Mídia Ninja. Sakamoto é autor da célebre frase metafísica: “o que define uma mulher não é o que ela tem ou teve entre as pernas”.
Mas nessa relação entre imprensa, tevê e organizações financiadas por George Soros, destaca-se Ronaldo Lemos, comentarista da Globonews, cofundador e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio). O ITS Rio recebeu da Open Society US$ 350 mil entre 2014 e 2015. Lemos foi talvez o nome mais conhecido na elaboração e defesa do Marco Civil da Internet, que abriu a possibilidade de regulação e de controle pelo Estado e que foi usado pela Justiça como fundamento jurídico para suspender o aplicativo WhatsApp.
Outro destaque é a também comentarista da Globonews (e voz cada vez mais conhecida na defesa da legalização das drogas) Ilona Szabó de Carvalho, diretora-executiva e coordenadora do Programa de Políticas sobre Drogas do Instituto Igarapé. Também financiado pela Open Society, o Igarapé recebeu mais de R$ 670 mil entre 2014 e 2015.
Em abril de 2015, aliás, houve um evento simbólico dessa relação: Ilona organizou junto com Pedro Abramovay, sobre quem falarei mais adiante, um jantar para George Soros no apartamento do casal Florencia Fontan Balestra e Fabiano Robalinho Cavalcanti, ambos do Instituto Igarapé. O encontro reuniu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Jorge Paulo Lemann (3G Capital), David Feffer (Grupo Suzano), Celso Lafer (advogado e professor), Guilherme Leal (Natura), Ricardo Marino (Itaú-Unibanco), Olavo Monteiro de Carvalho (Grupo Monteiro Aranha), Luciano Huck, Carlos Jereissati (Grupo Jereissati), Raphael Klein (Casas Bahia e Kviv Ventures) e Beatriz Gerdau (Grupo Gerdau). Nesse jantar no Rio de Janeiro, Soros falou sobre a cultura da filantropia, o que significa que ele falou sobre a sua cultura de filantropia para pessoas muito influentes e com muito dinheiro. Além disso, ele participou de um seminário sobre drogas.
Ainda sobre o ITS Rio, junto com Ronaldo Lemos integram a equipe Eliane Costa, que foi gerente de patrocínio da Petrobras de 2003 a 2012 (ou seja, durante todo o governo Lula); Lucia Nader, que é Fellow da Open Society; e Ana Toni, que integra o conselho editorial do jornal socialista Le Monde Diplomatique Brasil e que atuou como diretora da Fundação Ford no Brasil de 2003 a 2011 (quase o mesmo período em que sua colega trabalhou na Petrobras).
A drenagem dos recursos de Soros também alimenta entidades criadas por aquelas já financiadas pela Open Society. O ITS Rio, por exemplo, criou o site Mudamos.org, que recebe dinheiro de Soros e orgulha-se de ter participado da criação do Marco Civil da Internet. O dinheiro entra por vários canais, mas converge para o mesmo duto. O idealizador do Mudamos.org é o sociólogo socialista Luiz Eduardo Soares. Ele foi secretário de Segurança Pública do governo Anthony Garotinho, no Rio de Janeiro, e secretário nacional de Segurança Pública do governo Lula, além de coautor do livro Elite da Tropa, que serviu de base para o filme Tropa de Elite. Soares é notório defensor da desmilitarização da Polícia Militar e da descriminalização das drogas, cuja proibição tem como consequência, segundo ele, “a criminalização da pobreza, sem reduzir a criminalidade ou o consumo de drogas”. Se a pobreza é criminalizada em função da proibição, o sociólogo está dizendo que os pobres são criminalizados por envolvimento com as drogas? Não seria esta uma posição altamente preconceituosa e falsa de alguém que se equilibra entre Karl Marx e Michel Foucault?
Outras organizações que receberam dinheiro de Soros para influenciar a sociedade brasileira para liberação das drogas foram o Movimento Viva Rio, que entre 2009 e 2014 recebeu US$ 107 mil para atuar na defesa da liberação das drogas; e o Instituto Fernando Henrique Cardoso, que recebeu US$ 111.220 entre 2015 e 2016. O ex-presidente tornou-se a voz mais famosa a defender a legalização.
Há ainda o Instituto Arapyaú, fundado por Guilherme Leal, um dos donos da empresa Natura e que, em 2010, foi candidato a vice-presidente de Marina Silva, que foi petista por 24 anos até pedir para sair em 2009. Um dos membros do conselho de governança é o petista Oded Grajew, idealizador do Fórum Social Mundial (a disneylândia do socialismo latinoamericano), ex-assessor especial do presidente Lula e coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, que recebeu US$ 500 mil da Open Society em 2014 e 2015.
A lista vai além. O projeto Alerta Democrático, que recebeu US$ 512.438 em 2014 da Open Society Foundations, tem na sua equipe o já citado petista Pedro Abramovay, que trabalhou no Ministério da Justiça nos governos Lula e Dilma e que é, vejam só, Diretor Regional para América Latina e Caribe da própria Open Society. Abramovay também foi diretor no Brasil do site de petições Avaaz, que ele definiu “como um movimento que tem princípios”, não uma rede social ou “um espaço neutro”. Por isso, só aceita petições de causas afeitas à ideologia e retira do ar qualquer petição que vá “contra os princípios do movimento”. Outro integrante da equipe do Alerta Democrático é o ex-BBB Jean Wyllys, que usa o seu mandato de deputado federal para fazer valer o projeto de engenharia social mediante mudança de comportamentos de cima para baixo pela ação do Estado.
O financiamento de organizações socialistas e comunistas por uma certa elite econômica nem é uma novidade histórica: os revolucionários russos foram financiados por grandes empresários para fazerem a revolução de 1917; os nazistas foram financiados por grandes empresários para conquistarem o poder em 1932; os petistas foram financiados por grandes empresários até conquistarem o governo federal em 2002 (a Operação Lava Jato apresenta cada dia mais a dimensão, por ora incalculável, desse financiamento).
A agenda de Soros e a das organizações de esquerda é uma só ou converge em muitos pontos, a depender da organização e do país onde está sediada. O bilionário financia projetos que se coadunam com sua visão revolucionária de mundo; os revolucionários aceitam a doação porque o dinheiro financia o seu projeto revolucionário de mudar o mundo.
O primeiro a denunciar o projeto global de Soros via financiamento de organizações de esquerda foi o professor Olavo de Carvalho, a partir do fim da década de 1990. Muitos artigos sobre o tema foram publicados no jornal O Globo e depois reunidos no livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, organizado por Felipe Moura Brasil e publicado pela Editora Record.
E por que Soros faz o que faz?
Algumas respostas foram dadas pelo autor de Por trás da Máscara, Flavio Morgenstern, no podcast do site Senso Incomum, e pelo também colunista da Gazeta do PovoAlexandre Borges:
Soros é, possivelmente, o indivíduo sem cargo eletivo mais influente do mundo. (…) 
George Soros se vê como um missionário das próprias utopias e não conhece limites para usar sua fortuna quase sem paralelo para influenciar a política, a imprensa e a opinião pública em diversos países, especialmente os EUA. Como ele mesmo disse, ‘minha principal diferença de outros com uma quantidade de recursos acumulados parecida com a minha é que não tenho muito uso pessoal para o dinheiro, meu principal interesse é em ideias.(…)  
A Open Society é uma ONG bilionária destinada a influenciar a opinião pública e a política no mundo. Ela está presente em mais de 70 países é tão poderosa que, em alguns regimes, é considerada um ‘governo informal’. Nos EUA, mantém o poderosíssimo Media Matters, que dá o tom de praticamente toda a imprensa americana, além de ser o principal financiador do The Huffington Post, um ícone da esquerda mundial.(…)  
O número de fundações, ONGs, sindicatos e veículos de comunicação que recebem dinheiro de George Soros ou de suas fundações é tão vasto que só um incansável pesquisador como David Horowitz para catalogar e publicar no seu portal Discover the Networks. Se você tiver curiosidade, é só clicar aqui.”

Depois de descobrir qual é a agenda dessas organizações, quem as representa e as financia, e a influência que exercem na política, na economia e na opinião pública no Brasil, cabe a você refletir se aquilo que você pensa sobre desarmamento, liberação das drogas, desmilitarização da PM, democracia e outros temas é o resultado de uma análise genuína baseada em informações precisas ou uma mera repetição de discursos ideológicos previamente criados por esses revolucionários financiados pelo grande capital que costumam criticar.
Porque as agendas políticas que hoje despertam paixões, que provocam “polêmicas” e discussões nas redes sociais são muitas vezes o resultado de um trabalho muito bem articulado de instituições e personagens que nem sempre aparecem ou que aparecem como especialistas imparciais. Convém ter isso em mente e estar sempre alerta antes de defender determinadas posições e de agir como inocente útil de uma ideologia e de um projeto político tão ocultos quanto infames. Não se enganem: hoje, em qualquer canto onde haja um projeto revolucionário, George Soros está lá.
Fonte:   Gazeta do Povo
COMENTO: em resumo, o problema reside no fato de que, junto com uma extensa agenda visando a destruição da atual sociedade, os pretensos líderes do futuro inserem algumas coisas simpáticas a todo mundo (ou quase). 
Assim, fazem com que seus objetivos aparentem não ser tão deletérios. Isto é facilmente verificável nas redes sociais, particularmente nas "notícias" da "grande mídia" e nos diversos comentários a elas referentes. Temas como "união gay", por exemplo, assunto que só diz respeito e interessa aos gays, (cerca de 10% da população, quando muito) é frequentemente exposto junto a outros temas relativos a drogas, aborto, racismo, feminismo e outros, sendo motivo de extensa discussão e da maioria dos comentários. Quando isso ocorre, as demais "demandas" sequer são notadas. Outro exemplo de objetivo maléfico a ser imposto à sociedade é o esforço pela "descriminalização" das drogas sob o argumento da liberdade de cada um dispor de sua vida e saúde como bem lhe aprouver. Faz tempo que George Soros incentiva essa ideia que aqui no Brasil, não por coincidência, tem o apoio de FHC. A experiência de Pepe Mujica liberar a venda de maconha no Uruguai já está mostrando o resultado catastrófico da iniciativa, mas os canalhas de sempre fingem não ver.

domingo, 15 de outubro de 2017

Maduro: Mais Armadilha que Democracia

Maduro avisou que quem votar hoje, legitimará a Assembleia Constituinte. Esta, como se sabe, anulou as atribuições da Assembleia Nacional. Poderá fazer o mesmo com os governadores.
Foto: Reuters/Ricardo Moraes
Hoje (15 de outubro) ocorrerão eleições regionais na Venezuela, para eleger 23 Governadores de Estados. Durante as últimas décadas a convocação de eleições na América Latina tem sido uma festa democrática em boa parte dos países que durante décadas tiveram governos militares. Na Venezuela houve muitas jornadas eleitorais, particularmente no extenso regime chavista. As de hoje, não obstante, se afastam muito do significado que deveriam ter como expressão autentica e legítima de democracia participativa. 
Estas eleições deveriam ter sido celebradas em dezembro de 2016. Mas Nicolás Maduro as adiou mediante decreto, prevenido pelo triunfo da oposição na eleição do poder legislativo (Assembléia Nacional). Tão logo os movimentos de oposição assumiram o controle da Assembléia, seu Governo em conluio com o Conselho Nacional Eleitoral e o Tribunal Supremo de Justiça, violentaram as normas até o ponto de desalojar os deputados do Poder Legislativo e anular suas resoluções. Esses casos indicam o grau de manipulação a que está submetido o regime eleitoral venezuelano.
Por isso, ainda que as pesquisas que se podem fazer anunciem resultados contrários aos interesses do Governo, é ilusório pensar que as medições de opinião determinem o triunfo final, pois quem faz a contagem é que elege no final, e o poder eleitoral na Venezuela se subordina às ordens do poder presidencial. A célebre Tibisay Lucena, presidente do Conselho Eleitoral, é uma funcionária subalterna de Maduro e Diosdado Cabello, e é ela quem determina quem foi eleito para os governos estaduais.
Nada do que seria normal em um Estado de Direito - começando pela divisão de poderes e um sistema de de controles do exercício do poder - funciona na Venezuela. Lá tudo se sujeita aos interesses opacos da cúpula chavista e dos militares que os tutelam.
Além de todas estas anomalias democráticas, as eleições de hoje são apresentadas como uma verdadeira armadilha para os movimentos de oposição. Depois de semanas de manifestações diárias nas ruas e de sofrer uma violência oficial que deixou mais de uma centena de mortos, o chavismo conseguiu o que tanto se temia: dividir a oposição.
Depois de impor uma Assembléia Nacional Constituinte que usurpou as funções do Legislativo, e de acrescentar que quem votar neste domingo estará reconhecendo essa Constituinte - e que os eleitos deverão comprometer-se a acatar tal Assembléia - a oposição está no dilema entre participar, e portanto, reconhecer o sistema, ou abster-se e deixar o caminho totalmente livre para o chavismo.
A comunidade internacional, sem deixar de manifestar tímidamente seu incômodo com os atropelos autocráticos do chavismo, pede aos venezuelanos que votem. Entre as duas opções, votar ou omitir-se, para o resgate da democracia na Venezuela evidentemente é mais eficaz comparecer às urnas. Mesmo assim, a pureza do sufrágio e a transparência na contagem e escrutínios será mais que remota. Porém, a mobilização do voto em favor das liberdades e contra os déspotas pode consolidar os cimentos da heróica luta da oposição venezuelana.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
Comento:  ao final, temos que os canalhas do Foro de São Paulo estão tendo sucesso em manipular a população e os mecanismos de defesa da democracia na Venezuela.  Devemos ficar atentos para a implantação dos princípios estratégicos que levaram a esse desastre para a liberdade dos venezuelanos e que faz tempo são tentados no Brasil. De um deles fazem parte as contínuas "campanhas" pelo "voto nulo" e pela abstenção nas eleições, sob o argumento de que "não há candidato que valha a pena". Outra estratégia é reivindicar que o ato de votar deixe de ser obrigatório. São estratégias que favorecem os partidos com forte militância, notadamente os de bandeiras socialistas/comunistas. A não obrigatoriedade de comparecimento às eleições, ou o deixar de votar contra essas entidades e seus candidatos, faz com que a parte do seu eleitorado, mesmo sendo minoria, eleja seus candidatos em função da omissão dos seus oponentes. Acredite, entre os canalhas há muita gente inteligente. E nunca esqueça o velho ditado castelhano: "o diabo é mais diabo por velho que por diabo"!

domingo, 1 de outubro de 2017

Fortunas Lícitas e Ilícitas

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Escrevo com o propósito de tentar demonstrar a extensão da roubalheira a que estamos submetidos como cidadãos brasileiros, sem que a maioria da população se dê conta disso.
A alguns dias, em 27 Set 17,  morreu Hugh Hefner, o criador da revista Playboy e suas coelhinhas. Mesmo quem tenha restrições ao seu “estilo de vida” deve reconhecer que ele trabalhou, construiu um império representado por seu palácio luxuoso, cassinos, cabarés, publicações e suas colaboradoras — quase todas bem-sucedidas na vida profissional de modelo. A par disso, enriqueceu; viveu bem; e morreu como muitos gostariam — em um leito luxuoso, acompanhado por uma mulher 35 anos mais jovem. 
Seu sucesso iniciou quando eu sequer havia dado meus primeiros passos. Assim, eu tenho motivos para afirmar que a vida dele foi muito melhor sucedida que a minha, mesmo que tenhamos restrições a suas ações devido a crenças, cultura, hábitos ou de qualquer outro tipo — que podemos resumir na palavra "inveja" (mesmo aquela sem despeito ou rancor). Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não sou infeliz com a vida e a família que tenho nem com a profissão que exerci e que me proporcionou tudo o que tenho e me faz feliz. Mas a vida de Hugh Hefner me parece que foi bem mais interessante que a minha. E tenho que concordar com um sujeito da televisão que imaginou o falecido chegando ao Paraíso Celeste e sendo recebido por São Pedro que lhe diz: "Acho que vais achar isto aqui um pouco monótono!
Do noticiário sobre a morte dele, me chamou a atenção o fato de que, por ter sofrido alguns revezes financeiros, tenha deixado uma herança estimada em 50 milhões de dólares a ser repartida entre sua última esposa e três filhos, que teve com esposas anteriores. Isto representa cerca de 12,5 milhões de dólares para cada herdeiro. É bastante dinheiro!
Temos, então, que um sujeito de vida invejável a tenha terminado com um saldo financeiro de 50 milhões de dólares. Faço questão de repetir, para que esse valor seja memorizado por quem me dá o honroso privilégio de ler o que escrevo.
Feita a referência, vamos falar sério. Gosto de comparar fatos que, na aparência nada tem em comum. Por isso citei o falecido norte-americano.
Lembremos que faz pouco tempo, encontraram 51 milhões de reais “perdidos” em um apartamento emprestado a um canalha, velho conhecido dos que acompanham as costumeiras putarias do que denominamos política brasileira. 
Ou seja, considerando o atual valor cambial de um dólar valendo pouco mais de três reais, um grandessíssimo fiádaputa — mantido a bastante tempo em cargos públicos, que por si só pagam vencimentos e regalias já fabulosos, graças a boa parte dos eleitores baianos — mantinha escondido dinheiro provavelmente obtido de forma ilegal, no valor de cerca de um terço do que foi adquirido em toda uma vida de trabalho de um “magnata” norte-americano.
Lembremos outro fato. O ladrão Paulo Roberto Costa, pego com a boca na botija em algumas das muitas roubalheiras praticadas contra a Petrobras, dentre outras ações que deveriam envergonhá-lo, ofereceu devolver 100 milhões de dólares roubados que se encontravam depositados no exterior. Aqui, abro um parêntese. Se esse outro fiádaputa se dispôs a devolver 100 milhões de dólares, suspeito que foi no intuito de agir como alguns pássaros que cantam longe de seus ninhos para enganar predadores de ovos. Os 100 milhões entregues, acredito, devem ter servido para desviar a atenção de outras centenas de milhões "preservados" para um futuro não muito longínquo. Afinal, temos leis cretinas feitas por legisladores desonestos e aplicadas por juízes e ministros de tribunais superiores lenientes permitindo as progressões de penas que logo se transformam em verdadeiros indultos. 
Temos, assim, um outro canalha — apenas UM dos muitos envolvidos na pilhagem praticada contra aquela empresa que diziam ser dos brasileiros — que mantinha uma pequena conta bancária no exterior com um saldo que era o dobro do que o pobre “explorador” das coelhinhas amealhou trabalhando toda uma vida.
Poderia citar um grande número de casos similares, mas serviria só para enojar a quem me dá a honra de sua atenção.
Fico por aqui, lembrando um fato ocorrido comigo há pouco menos de vinte anos em Bogotá, Colômbia. Em uma reunião social com diplomatas, fui abordado por um russo que já havia ultrapassado um pouco o limite de segurança de teor alcoólico. Ao saber que sou brasileiro aproximou-se e alegando ter servido em Angola onde aprendeu um pouco do nosso idioma disse preferir falar errado em português do que em espanhol, idioma que lhe parecia mais difícil. Resumindo a conversa, que derivou sobre notícias internacionais, pensei que o russo estava tentando escarnecer-me ao citar que notícias sobre o Brasil, quando aparecem no noticiário exterior quase sempre tratam de grandes roubos e desfalques. Minha irritação se dissipou quando ele complementou dizendo amar o Brasil por sua riqueza, concluindo que sua pátria, a extinta URSS — “segunda potência mundial, quase primeira”, em suas palavras — em função da corrupção, que aparentemente não alcançaria dez por cento do que ocorre no Brasil, foi parar na lata do lixo terrestre, com sua sociedade na miséria e a criminalidade se impondo como forma de sobrevivência do povo em geral.
Fiquei com pena do russo. E lhe dou plena razão, ao mesmo tempo em que me pergunto: até quando nosso povo vai continuar “deitado em berço esplêndido”, brigando e matando por paixões futebolísticas, ao mesmo tempo em que pouco realmente se manifesta sobre a verdadeira “zelite” brasileira (maus políticos, aliados a maus empresários monopolistas e maus banqueiros que compram o povo com migalhas do que roubam descaradamente) que se mantém espoliando esta que deveria ser uma das maiores — senão a maior — potência mundial, devido a suas riquezas naturais?
Até quando continuaremos acreditando nessa mentira deslavada de que empresas estatais são "patrimônio do povo" e assim devem ser preservadas, sem buscar nos informarmos a respeito do que essas empresas tem nos oferecido como sociedade?  Essas empresas servem ao povo ou a políticos indecentes e funcionários aproveitadores?
Até quando continuaremos, aceitando o revezamento no poder de quadrilhas que destroem o Brasil com a conivência de boa parcela da população que se deixa iludir por "salvadores da pátria" e se omite nos momentos de decisão, entregando seu futuro e de seus filhos nas mãos de canalhas como o Cachaceiro Mentiroso e seus quadrilheiros — com destaque para a senhora apelidada de "Amante" nas planilhas da corrupção, a mesma cujo marido é réu em processos de fraudes em empréstimos consignados para funcionários públicos e aposentados — que ora invadem as salas de nossas casas afirmando que "tiraram 35 milhões da miséria", e não falam nada sobre os bilhões que tiraram da "res-pública".
Até quando continuaremos aceitando que nos façam de idiotas enquanto nos fazem acreditar que somos os mais malandros do mundo??
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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Escravos Brancos. Quando a Caça de Peles Claras Semeava o Terror na Europa


Duas naves alongadas se aproximaram da popa da barcaça Francis. Os homens a bordo da Francis, uma pequena embarcação de carga que em 1716 ia de Gênova para a Inglaterra, estremeceram de terror: aquelas naves são xebecs, navios de três velas usados pelos caçadores de homens brancos. Eles vêm do norte da África, e os marinheiros da Francis sabem bem o que lhes espera: a escravidão. Todos perderão a liberdade, e muitos a própria vida. Serão jogados em celas pútridas, serão torturados e humilhados, maltratados até a morte. Poucos conseguirão rever a pátria.
O mercado de escravos de Argel em um desenho europeu de 1700. Os prisioneiros europeus eram acorrentados, desvestidos, examinados como atenção, muitas vezes espancados e depois comprados por mercadores que os revendiam para que executassem trabalhos forçados ou como remadores nas galés.
Ouro branco 
Escravos europeus, senhores africanos: uma situação insólita que só nos últimos tempos está sendo objeto de estudos aprofundados pelos historiadores. O quadro que temos daquela época, quando os cristãos eram chamados de “ouro branco” nos mercados norte-africanos, ainda está recoberto por uma pátina de descrições folclóricas.
No século 19, na Europa, o exotismo oriental estava na moda, sobretudo na pintura e demais artes plásticas (veja o quadro “Mulher branca sequestrada e levada ao harém”) e obras do gênero constituíam um filão muito lucrativo. Esse modismo também encontrou ressonância na produção literária naqueles tempos. Mas os historiadores, curiosamente, nunca levaram o fenômeno realmente a sério. Hoje, um livro do historiador norte-americano Robert Davis traça um panorama radicalmente diverso.
Segundo Davis, não menos de um milhão de europeus foram escravizados e obrigados a servir os seus senhores africanos. Entre 1580 e 1680, em Argel, Túnis, Trípoli e em muitas outras localidades do litoral norte-africano, viviam estavelmente cerca de 35 mil escravos brancos.
Procurando calcular quantos homens tinham de ser capturados para manter estável esse número, levando-se em conta as fugas (menos de 1%), resgates (4%), mortos pela peste que, na África, se espalhava com espantosa regularidade, Davis estimou que a cada ano fosse preciso capturar pelo menos 8.500 pessoas, ou seja 850 mil indivíduos no período entre 1580 e 1680.

1,25 milhão de escravos brancos
Para toda a época da escravidão, de 1500 até 1800, Davis estima “com boa aproximação” um número total de 1,25 milhão de europeus reduzidos à escravidão. E ele se refere apenas às cidadelas dos caçadores de escravos no Mediterrâneo ocidental: Argel, Túnis e Trípoli. Mas também no Marrocos e no Egito, dezenas de milhares de europeus viviam em escravidão, bem como no Império Otomano: em Constantinopla, entre os anos 1500 e 1800, havia uma presença estável de 30 mil escravos.
Os caçadores de escravos do Norte da África chegavam até a Grã Bretanha. Ao chegar aos portos britânicos, saíam das naves e invadiam tavernas e igrejas, vestindo roupas longas e com as cabeças completamente raspadas, empunhando cimitarras e arrastando os clientes das tavernas ou os fieis que assistiam à missa. Em 1627, um grupo argelino de caçadores de homens chegou à Islândia, onde sequestrou cerca de 100 homens, mulheres e crianças.
1,25 milhão de europeus deportados para o norte da África entre 1500 e 1800. Mas os africanos negros deportados para as Américas pelos europeus entre 1451 e 1870 foram cerca de 12 milhões.





















Terror na Itália 
Mas foi sobretudo no sul da Itália onde esses corsários mais agiram. Em 1543, desembarcaram na península cerca de 12 mil corsários, um verdadeiro exército que penetrou cerca de 30 quilômetros no interior das terras. Cerca vez, chegaram a 20 quilômetros do Vaticano. As milícias locais não ousavam atacar os invasores, claramente superiores em número e capacidade de combate. A Itália, na época, não existia como nação. O território italiano era fragmentado em numerosos pequenos Estados e algumas repúblicas, e os centros de poder estavam quase sempre situados bem longe das aldeias e pequenas cidades.
Em 1544, os caçadores de homens fizeram 7 mil prisioneiros no Golfo de Nápoles. Dez anos depois, em 1554, deportaram 6 mil pessoas residentes em Vieste, na Apúlia. Quando as naves voltavam à casa depois dessas incursões e desembarcavam os prisioneiros, contam os testemunhos da época que, nos mercados de escravos do norte da África, “um europeu valia o preço de uma cebola”.
Algumas vezes as expedições alcançaram um êxito tão grande que as naves corsárias não conseguiam transportar todos os passageiros. Estes eram então vendidos com grandes descontos aos seus próprios parentes. Era o momento em que entravam em ação os agiotas europeus locais que faziam empréstimos a quem não tinha condições de pagar o resgate de parentes sequestrados e, como abutres, tiravam proveito da desventura dos seus conterrâneos. Em situações como essa, os parentes do prisioneiro empenhavam a própria casa e todos os bens que existiam nelas. Assim, em poucas horas poderiam abraçar de novo os seus familiares queridos, mas não tinham mais como viver.
A escravidão foi praticada em toda a parte no mundo inteiro, desde as primeiras grandes civilizações como o Egito e a Grécia. Em Roma, os escravos estavam tão desesperados que, guiados por Espártaco, ousaram se rebelar. Com o advento do cristianismo, aos cristãos foi proibido comprar outros cristãos escravizados (mas a regra não se aplicava aos fieis de outras religiões). Mesmo assim, com essa providência, a escravidão na Europa diminuiu. Mas nos tempos coloniais 12 milhões de negros africanos foram deportados para a América, sobretudo para os Estados Unidos e o Brasil.
Ao redor do ano 1600, o alcance desse fenômeno foi redimensionado. A vigilância dos litorais melhorou graças à construção de fortalezas para a defesa e de torres de vigilância, ao mesmo tempo em que unidades de cavalaria barravam as estradas aos corsários que voltavam para suas naves carregando o seu botim. A partir daí, inúmeras incursões rápidas substituíram as grandes partidas de caça aos europeus de pele branca. O número das vítimas desses “furtos de cristãos” se somava àquele de pessoas capturadas no decurso de grandes operações espetaculares. As populações europeias litorâneas buscaram refúgio no interior das terras, em aldeias fortificadas cercadas por muralhas, sobre as colinas. As zonas costeiras ficaram despovoadas, as ilhas foram abandonadas. Foi por essas razões que começaram os ataques de corsários a navios mercantes. Muitas vezes os caçadores se aproximavam de suas vítimas a bordo de naves já conquistadas, sob falsa bandeira e vestidos com os uniformes das nações amigas. Entre 1613 e 1621 foram sequestradas e conduzidas a Argélia cerca de mil navios provenientes da Inglaterra, da França, dos Países Baixos e da Espanha.
Os europeus capturados eram levados para as cidades do norte da África, arrastados pelas ruas como animais, espancados e cobertos de cuspidas por uma multidão que gritava insultos. Eram a seguir levados a cárceres subterrâneos. Aglomerados nesses celas infectas, viviam em meio a excrementos, insetos e parasitas. A luz penetrava através de uma abertura gradeada no teto. Para abandonar a prisão, os escravos tinham de se agarrar a uma escada de cordas que era jogada do alto.

Leilão no mercado
Permaneciam nessas condições até o dia do leilão no mercado de escravos. Lá, tinham de se exibir saltando, dançando e cantarolando: os clientes queriam ter certeza que a mercadoria estivesse saudável e em bom estado. Os potenciais compradores avaliavam a musculatura, examinavam as mãos e os pés, observavam atentamente os dentes. No mercado se decidia a partida entre a vida ou a morte. O comprador precisava de um animal de trabalho, queria um escravo ou escrava sexual, ou simplesmente se tratava de um investimento especulativo? Apenas nos casos em que o novo proprietário esperasse obter um resgate elevado pela libertação do prisioneiro, ele evitaria maltratá-lo até a morte.
Várias torturas infligidas aos escravos: empalados, esquartejados por duas naves, queimados vivos, crucificados, queimados com velas, enterrados vivos, cortados em pedaços, arrastados por cavalos.
Prender um bispo era como ganhar na loteria
Por essa razão, os mais procurados pelos caçadores eram os passageiros ricos que viajavam a bordo de navios: comerciantes, sobretudo, com familiares dispostos a pagar elevadas somas pelo seu resgate. Ainda mais que os comerciantes, os bispos da Igreja valiam verdadeiras fortunas. Espalhara-se o boato de que a Igreja pagava regiamente e sem fazer alarde pela devolução dos seus dignitários.
O destino mais benévolo tocava geralmente a quem fosse comprado para trabalhar como serviçal em casas privadas: esvaziar as latrinas, conduzir camelos, talvez tocar música nos jardins e servir o café. Mas aos escravos destinados a trabalhos forçados em obras dos governos era reservado um tratamento duríssimo e impiedoso. Em Argel, tinham de arrastar por quilômetros blocos de pedra de 20 a 40 toneladas, desde a pedreira de onde tinham sido extraídos até o cais do porto. E podia ser ainda pior: a forma mais brutal de exploração do braço escravo era a dos remadores de galés.
A bordo de uma galé, a água de beber era poluída. Quem não resistia e caía doente era simplesmente jogado ao mar. Os homens viviam acorrentados aos remos. Não podiam se afastar deles e nem ficar em pé, e tinham de dormir sentados em filas de 3 a 4 pessoas. Para fazer suas necessidades, tinham de subir sobre os vizinhos até chegar à borda. Muitos deles, exaustos, renunciavam a se mover; por isso as galés eram cercadas por um fedor bestial. Nas galés de guerra otomanas, os remadores permaneciam acorrentados até mesmo quando a nave permanecia no porto durante o inverno. E, quando a nave naufragava em batalha, levava os escravos para o fundo.
Muitos escravos acabavam se convertendo ao Islã. Para os proprietários, a conversão dos escravos era um evento contraditório: útil para agradar a Alá, mas negativo para os negócios. Os convertidos não poderiam mais ser tratados de modo desumano. Para quem, por outro lado, se afastava do cristianismo, a passagem ao Islã significava um pacto com o demônio. Para o governo inglês esse escravo se tornava um traidor e não podia mais esperar por qualquer resgate. Com frequência segundo relatos, os ex-cristãos se distinguiam pelo zelo particular como colaboradores do regime: “Superam inclusive os bárbaros em matéria de crueldade e espancam os seus irmãos sem piedade”.
Mercadoria para o harém.
A compra de uma mulher branca nessa ilustração.
A escravidão no luxo
Alguns poucos escravos brancos, no entanto, conseguiam se sair muito bem. O veneziano Giacomo Colombin, por exemplo, capturado no mar em 1602, foi cortejado e protegido pelo capitão dos corsários porque possuía sólidos conhecimentos de engenharia e arquitetura, o que lhe trouxe grande riqueza: era um escravo, mas morava em um casarão luxuoso sobre as colinas de Argel. Depois de 30 anos, usando uma nave que ele mesmo projetara, conseguiu fugir junto a 22 outros prisioneiros.
Tais exemplos mostram que as sociedades escravagistas do norte da África eram bem mais complexas do que podemos imaginar. Novas fontes de informação possibilitam uma nova visão da vida social que se desenrolava nos assim chamados “banhos” de Argel. Desde o início do século 18, esses bairros-prisão, verdadeiros labirintos de ruelas similares às modernas favelas, nos quais vivia uma população de muitos escravos, possuíam algumas capelas para o culto católico, dirigidas por sacerdotes autorizados pelas autoridades dessas metrópoles dos corsários. Os muçulmanos apreciavam a ajuda desses padres, tanto no campo pastoral quanto médico. Os religiosos, com o tempo, conquistaram também um papel cada vez mais importante como agentes nas tratativas para os resgates. Tais processos, com o tempo, passaram de simples “vendas a varejo” de seres humanos para um comércio no atacado de homens-mercadoria.

Em 1816, a abolição
Os resgates custavam caro: em 646 um emissário inglês pagou 38 esterlinas por escravo, a renda anual de um comerciante inglês abastado. A política europeia em relação aos piratas, particularmente a francesa, permaneceu durante muito tempo caracterizada por hesitações e cinismos táticos: era mais importante um bom acordo comercial do que o destino dos escravos. No final do século 18, o rei da Dinamarca enviava a cada ano um tributo de armamentos aos caçadores de homens para que deixassem suas naves em paz. Mas com o final das guerras napoleônicas as relações mudaram. Durante o congresso de Viena entre 1814 e 1815, sob pressão do governo inglês, foi banido o comércio transatlântico de escravos. Ao mesmo tempo, o almirante inglês Sir Sidney Smith, chefe da “Sociedade dos Cavaleiros Libertadores de Homens Brancos Escravizados” lançou a ideia de uma intervenção humanitária no norte da África.
Em agosto de 1816, uma esquadra composta por 18 navios de guerra ingleses, alguns dos quais dotados de mais de 100 canhões, e com o apoio de naves holandesas, ancorou na baía de Argel. Quando se esgotou um ultimato, todas as naves abriram fogo, e sobre a cidade de Argel caíram cerca de 50 mil balas de canhão. A frota dos corsários ancorada no porto foi queimada. O fogo se propagou nas estruturas do porto e dos arsenais, e em pouco tempo se espalhou por toda a cidade. Argel virou uma ruína. Só nesse ponto foi que o comandante chefe dos corsários se rendeu e colocou em liberdade todos os escravos brancos. Logo em seguida, também Túnis, Trípoli e o Marrocos se apressaram em declarar que a escravidão fora abolida.
A escravidão negra nas Américas, no entanto, durou muito mais tempo. No Brasil, ela só terminou em 1888, pela pena da Princesa Isabel, Regente do Império – e a pressão de governos estrangeiros, sobretudo a Inglaterra.
Fonte:    Luis Pellegrini