terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Como a Espionagem Comunista se Infiltrou no Governo de Dois Ex-presidentes Brasileiros

O ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara, e o presidente Jânio Quadros durante encontro no Brasil, em 1960  -  Arquivo - FolhapressArquivo
Dois pesquisadores resgatam a trajetória do serviço secreto da Tchecoslováquia, que foi muito atuante no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 e enviou informações para Moscou
por Tiago Cordeiro
Existem espiões em todas as épocas e todos os lugares, especialmente durante conflitos ou situações de tensão entre blocos de países. É natural imaginar que, durante a Guerra Fria, havia agentes e informantes em todos os cantos do planeta.
O Brasil, o maior país da América Latina, era um território estratégico, principalmente depois que um pequeno grupo de guerrilheiros transformou Cuba em uma ilha socialista a poucos quilômetros dos Estados Unidos. Mas quem exatamente circulou no Brasil? Que informantes utilizaram? Que estratégias adotaram
É conhecido o interesse da CIA em interferir nos rumos políticos brasileiros nos anos 1950 e 1960. Afinal, o país abriu boa parte de seus arquivos e o que se sabe já indica que Washington acompanhou bem de perto o contexto do país. Chegou a se preparar para dar apoio militar aos adversários do presidente João Goulart, uma medida que acabou não sendo necessáriaNo caso do bloco soviético, os arquivos em geral permanecem fechados, ou de difícil acesso. Com uma exceção muito importante: a Tchecoslováquia.
O país era influente no Brasil. Empresários importantes, filhos ou netos de tchecos, eram respeitados, principalmente no Sul e Sudeste. Não eram necessariamente adeptos do comunismo, é claro, mas sua presença oferecia bela fachada que os agentes tchecos aproveitaram ao longo dos anos 1950 e 1960. 
Melhor ainda: depois da redemocratização realizada a partir dos anos 1990, a Tchecoslováquia abriu quase todos os seus arquivos que documentam a atuação de seu serviço secreto. Só faltava quem fosse até lá com muita disposição e conhecimento mínimo do idioma.
Com a publicação de 1964: O Elo Perdido, Mauro Kraenski e Vladimir Petrilák começam a suprir essa lacuna. A obra traça um panorama detalhadíssimo a respeito da atuação da Státní Bezpečnost (StB), a polícia secreta tcheca, no Brasil, entre 1952 e 1971. Conclui que assessores muito próximos de pelo menos dois presidentes brasileiros atuaram fornecendo informações para o lado de lá da cortina de ferro. 
Arquivos abertos 
Ao fim da Segunda Guerra Mundial e a formação do bloco de países aliados da Rússia, diferentes serviços secretos surgiram para investigar as populações locais e também espionar e agir no exterior. Sabemos que, no Brasil, agentes da Polônia, da Alemanha Oriental, de Cuba e da Tchecoslováquia moraram no país. Todos repassaram informações para suas sedes. Dali, os relatórios seguiam para Moscou. Quando necessário, os russos interferiam, pedindo mais informações ou assumindo o controle de determinadas operações. 
É realmente impressionante que o serviço de inteligência da pequenina Tchecoslováquia tenha sido capaz de atuar em tantos países do mundo. Foi um verdadeiro serviço de inteligência global em suas atuações. Possuiu suas rezidenturas (sedes) em vários países latino-americanos, como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Bolívia, México, Equador”, diz Mauro Kraenski, tradutor versado em polonês, com boas noções do idioma tcheco.
Mauro passou dois anos digerindo as informações disponíveis nos arquivos de Praga, a capital. Quando encontrou dificuldades, foi socorrido pelo coautor, o colunista tcheco Vladimir Petrilák. 
Não foi nem um pouco difícil ter acesso aos documentos”, diz Vladimir. “O arquivo é público e está aberto para qualquer um que deseje pesquisar. Não houve censura de documentos, somente em alguns poucos casos recebemos a informação de que determinada pasta deveria passar por um tipo de avaliação. Trata-se de uma formalidade, mas ao fim, depois de um curto período de tempo, estas pastas também foram liberadas”.
O site oficial do livro apresenta alguns desses documentos. 
Visão negativa dos brasileiros
A StB começou a agir entre nós no Rio de Janeiro, com um único agente, o barbeiro por profissão Jiří Kadlec, codinome Treml. Tinha 27 anos e só havia feito um curso de espionagem de dois meses. Seu maior objetivo estava bem claro: “A missão mais importante era a luta contra os Estados Unidos da América e muitas das tarefas tinham como objetivo desacreditar os americanos e prejudicar a sua imagem”. 
Ele vivia sozinho num apartamento que funcionava como a “rezidentura”, o nome das instalações de agentes no exterior. Na mesma época, a rezidentura da StB em Nova York abrigava sete agentes; a de Buenos Aires, quatro. Treml agiu sozinho por dois anos e, em seus relatórios, reclamou muito. Primeiro, porque não tinha estudado português o suficiente antes de se mudar. Segundo, porque seu apartamento mal tinha móveis. Ele não tinha autorização para mobiliá-lo nem verba para levar informantes para passear ou jantar. Poucos anos depois, a situação havia mudado bastante. 
Em 1962, depois de dez anos de atividades, já viviam no Rio vários agentes, que mantinham uma boa rede de relacionamento. Também havia um espião vivendo em Brasília e contatos esporádicos em São Paulo. 
Um manual básico sobre o Brasil para novos espiões, datado dessa época, descrevia o país da seguinte forma:
O funcionário do serviço de inteligência no Brasil terá contato principalmente com a população das grandes cidades, ou seja, com a chamada classe média, da qual procedem a maioria dos funcionários públicos federais. Um brasileiro, ao contatar com um estrangeiro, possui uma tendência em fazer uma grande quantidade de promessas, já supondo que não cumprirá nenhuma delas. São pessoas preguiçosas e bem levianas, com as quais não se pode contar.
O texto continua: “No Brasil, por regra, encontramos pessoas ignorantes, que, mesmo com numerosos títulos científicos, não chegam aos pés da nossa gente com formação primária.” 
Contato com Jânio e Jango 
Além de fazer este tipo de estudo sobre as características sociais, políticas e comportamentais do país, os tchecos tinham um objetivo claro: convencer formadores de opinião nacionalistas, incomodados com a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil. Um dos critérios para descartar um possível informante, inclusive, era sua participação em partidos de esquerda, que fariam dele um alvo fácil demais, capaz de expor a própria StB
O serviço de inteligência tchecoslovaco determinava alvos de interesse”, diz Mauro. “No Brasil, podemos citar: Ministério das Relações Exteriores, Congresso Nacional, instituições científicas, polícia, serviço de inteligência, partidos políticos, jornalistas, Petrobrás, Exército, Confederação Nacional da Indústria”. A exceção mais notável foi Francisco Julião: a StB se mostrou muito interessada no líder das Ligas Camponesas e chegou a avaliar seriamente sua capacidade para liderar uma revolução comunista. 
Foi ao buscar este perfil de pessoas, capaz de influenciar a imprensa e a economia, que os agentes tchecos alcançaram figuras de alto escalão no cenário político brasileiro pré-1964, incluindo jornalistas com acesso ao presidente e aos bastidores de eventos, assessores de ministros e diretores de departamentos estratégicos em Brasília. 
Dois casos, em especial, chamam a atenção. O tradutor Alexandr Alexeyev, agente da KGB, ficou próximo de Jânio Quadros quando o então presidente visitava Moscou como político de oposição, em 1958. Nesse caso, os arquivos da StB fornecem um vislumbre da ação do alcance da KGB no Brasil. Alexeyev estava em Cuba quando Jânio foi eleito. A StB ajudou a conseguir o visto para que ele entrasse no Brasil. Graças a um contato dos agentes tchecos em Brasília, o agente russo conseguiu, em 5 de maio de 1961, realizar uma reunião com o presidente. Ouviu de Jânio a promessa de que as relações diplomáticas do Brasil com a URSS seriam reatadas – o que de fato aconteceria, em novembro. 
E há a história da aproximação com João Goulart. Jango visitou a Tchecoslováquia em dezembro de 1960, como vice-presidente. Da visita, os agentes relataram uma impressão positiva. E ficaram mais bem relacionados ainda com Raul Francisco Ryff, um assessor muito próximo de Jango. Durante todo o governo de João Goulart, a StB foi mantida muitíssimo bem informada sobre as intenções do presidente. 
Pró-Cuba
A StB também liderou uma frente de formadores de opinião pró-Cuba. Chegou a formar um grupo, a Frente Nacional de Apoio a Cuba (FNAC), que em 1963 organizou em Niterói o Congresso Continental de Solidariedade a Cuba. Também emplacou artigos em jornais e revistas a favor de Cuba e dos soviéticos e contra os Estados Unidos. 
Ainda assim, a influência junto a essas figuras e a capacidade de organizar eventos em solo nacional não permitiu que a StB percebesse nem a renúncia de Jânio, em 1961, nem a aproximação do golpe militar de 1º de abril de 1964.
Os próprios agentes fazem a autocrítica a respeito dessa falha grave: “A deposição de Goulart foi realizada diretamente pela extrema reação de círculos civis e militares, ou seja, por aquelas mesmas pessoas que realizam golpes em pequenos países centro-americanos”, apontam em seu relatório. “O fato é que nestes círculos nós não possuímos nem nossa rede de agentes, nem contatos secretos”. Sinal de que a meta de se aproximar dos militares nunca foi atingida. 
Reação ao golpe 
Depois do golpe, a StB tentou ajudar a reação. Fez contatos com Leonel Brizola, genro de João Goulart e possível líder de uma reação armada. Mas Brizola adiou a ação, alegando que ainda não havia espaço para uma reação consistente. 
A partir de então, começou a terceira fase do serviço de espionagem tcheco em solo brasileiro. Ela acabou se mostrando um esforço cada vez mais perigoso, na medida em que o regime militar brasileiro aumentava o cerco sobre estrangeiros originários do Leste Europeu. Isso não quer dizer que a permanência não tenha dado nenhum resultado.“A StB sabia que Cuba apoiava a guerrilheiros e inclusive, no âmbito de uma operação que se chamava Manuel ajudou no transporte, via Praga, de latino-americanos, inclusive brasileiros, que faziam treinamento de guerrilha em Cuba”, diz Mauro. 
Em 1971, o escritório da agência foi definitivamente fechado. Em algum momento o serviço de espionagem tcheco teria sido capaz de induzir um golpe de esquerda no Brasil? Não, mas conseguiu ser influente o suficiente para influenciar parcelas da imprensa e municiar Moscou de boas informações sobre os bastidores do governo brasileiro. Não é pouca coisa. As pesquisas de Mauro e Vladimir continuam, mas, por enquanto, já foram localizados mais de três dezenas colaboradores brasileiros. 
Não temos a intenção de denegrir a imagem de ninguém; não somos nós que estamos afirmando que alguém foi um colaborador, são os documentos do arquivo da polícia secreta da Tchecoslovaquia comunista que o dizem”, afirma Vladimir. “Por enquanto, pudemos encontrar informações sobre cerca de 30 colaboradores brasileiros, descritos como agentes ou contatos secretos. Estamos falando de, por exemplo, diplomatas, economistas, jornalistas”.
Fonte:  Gazeta do Povo
COMENTO:  recomendo a leitura, para quem não leu, do livro Camaradas, de Willian Waack - um dos motivos dele ser detestado por parcela dos comuno-socialistas brasileiros, apesar de ter recebido auxílio de um dos filhos de Luis Carlos Prestes na sua elaboração. Aparentemente, o livro tratado nesta postagem, segue no mesmo ritmo, documentando a atuação anti-patriótica e pró-comunista de muita gente que se diz "democrata".  São conhecidos diversos maus brasileiros que em nome de uma ideologia totalitária se submeteram (conscientemente, diga-se de passagem) a fazer parte de redes de espionagem a serviço da extinta União Soviética. Acredito que seja uma boa leitura.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Pensando Como um Analista de Inteligência - Parte 1

.
Todos nós gostamos de pensar que tomamos decisões lógicas. Afinal, se decidimos um problema, nossa conclusão faz sentido para nós, ou então não teríamos chegado a essa conclusão, certo?
Além disso, quando descobrimos que outros analisaram a mesma questão e chegam a uma conclusão diferente, o que fazemos? Se formos honestos, a maioria de nós pensará que os outros estão errados e imediatamente procuramos evidências para provar isso.
A verdade é que somos todos suscetíveis a pensar de forma errada. De fato, os processos intelectuais que ajudaram a raça humana a crescer e prosperar são os mesmos processos que nos deixam suscetíveis a um julgamento equivocado.
Esses são os processos que o Analista de Inteligência deve deixar para trás.
Oratória versus Pensamento Crítico
Os Analistas de Inteligência reúnem enigmas. Eles analisam informações de várias fontes para tentar entender o que os adversários estão fazendo e o que é provável que façam a seguir. O pensamento crítico é a chave para o sucesso.
O problema é que muitos de nós não sabem como pensar de forma crítica. David T. Moore, um profissional de IC e autor de "Pensamento Crítico e Análise de Inteligência", afirma que o pensamento crítico não é ensinado em muitos cursos universitários, apesar de muitos dos programas de estudos classificarem o "pensamento crítico" como um objetivo.
O mais próximo que muitos estudantes chegam do pensamento crítico, diz Moore, geralmente é quando aprendem o Método Científico. Por outro lado, é provável que os alunos de cursos não-científicos não tenham o treinamento necessário para serem bem-sucedidos. Isso porque o que é ensinado nas escolas mais frequentemente é uma espécie de retórica, a arte de argumentar para provar um ponto de vista. Começando no ensino médio, somos ensinados a desenvolver uma tese e a "provar" através da argumentação.
Infelizmente, a oratória reforça alguns dos processos mentais que tornam o pensamento crítico tão desafiador, como a busca seletiva de informações que confirmem nosso ponto de vista. E talvez nem tenhamos consciência de que estamos fazendo isso.
Modelos mentais: o bom e o mau
Nossas mentes estão cheias de informações que acumulamos ao longo dos anos, desde a infância até hoje. Nossos cérebros fazem o trabalho maravilhoso de usar essa informação para criar modelos mentais do mundo. Usamos esses modelos mentais diariamente para tomar decisões sobre a vida. Eles fornecem um atalho intelectual que é altamente útil no dia a dia. Mas eles têm um lado ruim.
Richards J. Heuer, autor da "Psicologia da Análise de Inteligência", explica que os modelos mentais muitas vezes colorem e controlam nossa percepção de eventos em medida tão grande que podemos realmente não perceber o que está acontecendo na nossa frente. Em outras palavras, tendemos a perceber o que esperamos perceber.
Como exemplo, dê uma olhada na seguinte imagem *: o que você vê?
Imagem de “Psychology of Intelligence Analysis” de Richards J. Heuer.
Nossos modelos mentais podem nos concentrar nas três formas idênticas. Ou eles podem nos concentrar nos três termos ouvidos comumente. A maioria das pessoas, no entanto, não perceberá que os advérbios em cada uma das três frases são repetidos. (Se você notou, parabéns! Você está na minoria.) Como não esperávamos ver os advérbios repetidos, a maioria das pessoas simplesmente não vê a repetição.
Analistas de Inteligência, explica Heuer, desenvolvem expectativas sobre as motivações dos atores adversos. A evidência que se adapta a essas expectativas tende a ser facilmente assimilada, enquanto a evidência que contradiz essas expectativas tende a ser ignorada.
Esses modelos são notoriamente difíceis de quebrar. Mesmo quando nos são apresentadas evidências que invalidam o modelo, relutamos em ceder. Em vez de analisar a questão de forma objetiva desde vários pontos de vista, ficamos rodopiando a informação que valida aquilo em que já acreditamos.
Olhe ao redor e veja por si mesmo. Os discursos atuais são feitos por pessoas que fazem julgamentos desde modelos mentais muito diferentes. Um lado olha para o outro e simplesmente não consegue entender por que certos fatos não influenciam suas opiniões.
É porque não queremos que nossas opiniões sejam influenciadas. Queremos que os nossos modelos sejam validados. E faremos uma enorme ginástica mental para que isso aconteça.
Na próxima publicação, analisaremos uma amostra de técnicas utilizadas na Comunidade de Inteligência para quebrar esses processos e fazer o pensamento crítico justificar seu próprio nome.
Fonte: tradução livre de Intelligence Community

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Perene Revolução Socialista no Brasil

General R1 Luiz Eduardo Rocha Paiva
O lançamento do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848, contribuiu para expandir a ideologia comunista. Anos depois, foram criadas organizações afins nas sucessivas Internacionais Socialistas, que reuniam distintas tendências da revolução socialista mundial.
A III Internacional, realizada em Moscou em 1919, ficou conhecida como a Internacional Comunista (IC). Ela criou o Comitê Internacional (Comintern), órgão do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) encarregado de disseminar a revolução socialista, criando partidos afins em diversos países. Em 1922, nasceu a Seção Brasileira da Internacional Comunista, origem do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de sua futura dissidência, o Partido Comunista do Brasil, após a cisão em 1962.
Para se filiar à IC, a Seção aceitou as 21 condições impostas pelo Comintern. Algumas determinavam que os PC combinariam ações legais com ilegais, fariam campanhas de agitação e propaganda com foco nos exércitos, seriam partidos internacionais subordinados ao PCUS e renunciariam ao patriotismo e à paz social. Por tudo isso, e com o PCB submisso à União Soviética, o socialismo já nasceu incompatibilizado com as Forças Armadas brasileiras, instituições exclusivamente leais à nação, legalistas, patrióticas e fiadoras da paz interna.
A revolução socialista faz um trabalho permanente de acumulação de forças, que culmina com tentativas de tomada do poder quando o partido revolucionário considera ter alcançado condições objetivas para tanto. Foram três tentativas frustradas e a quarta está em pleno e exitoso andamento.
A primeira foi a Intentona Comunista em 1935. O traidor Luiz Carlos Prestes liderou uma frente ampla - Aliança Nacional Libertadora (ANL) - constituída pelo PCB e setores da esquerda. O golpe foi autorizado pelo PCUS e seguiu o modelo bolchevista russo de 1917, ou seja, um golpe de Estado imediato e violento. No Manifesto Revolucionário, convocando a nação, constavam os slogans: todo o poder à ANL; e pão, terra e liberdade. Na revolução bolchevista, os slogans eram: todo o poder aos soviets; e pão, paz e terra. Coincidência?
A segunda iniciativa se intensificou de 1961 a 1964 e usou a via pacífica preconizada pela URSS a partir de 1956. O golpe foi paulatinamente preparado por meio da infiltração em instituições e setores estratégicos, a fim de viabilizar pressões de base e de cúpula para desestabiliza-los, e por meio da subversão (agitação e propaganda), para criar o clima revolucionário e motivar a sociedade para o golpe. Em 1963, Luiz Carlos Prestes declarara que o Brasil disputava a glória de ser o segundo país do continente a implantar o socialismo e que o PCB estava no governo, mas ainda não tinha o poder.
A terceira tentativa foi preparada desde o início dos anos 1960 e se intensificou a partir de 1966. Empregou a forma violenta (linha maoísta) - luta armada prolongada - modelo fortalecido após o fracasso da via pacífica de linha soviética. A revolução socialista recebeu outro duro golpe, mas atrasou por dez anos a redemocratização almejada pela nação. A esquerda revolucionária não teve o reconhecimento de nenhuma democracia e de nenhum organismo internacional de que lutasse por democracia ou representasse parte do povo brasileiro. A redemocratização, em 1978, não foi obra da luta armada, então totalmente desmantelada, mas sim do governo militar, da oposição legal e da sociedade civil ordeira.
Porém, a revolução socialista é perene e, hoje, ela acumula forças para a quarta tentativa de conquistar o poder. Emprega a via pacífica de linha gramcista, estratégia de longo prazo que vem desde os anos 1960. O PT, substituto do PCB e do PCdoB na liderança da revolução, pretende a hegemonia sobre a sociedade para controla-la; e neutralizar o aparato de segurança do Estado, de modo a tomar o poder, destruir o Estado burguês e implantar o regime socialista. A investida sofreu um revés com a saída do PT do governo, mas ele manteve o controle de setores importantes de uma sociedade enfraquecida pela destruição de valores atiçada, há décadas, pela revolução socialista. O PT é um partido socialista, de acordo com os seus próprios documentos, e o fato de muitos de seus líderes terem sido corrompidos pela ganância de poder e riqueza não significa que ele não seja ideológico. É um partido ideológico-fisiológico.
Países com grave divisão ideológica têm altos índices de instabilidade, insegurança interna, debilidade no cenário externo e o futuro comprometido. Isso acontece, em prazos mais curtos, com nações politicamente imaturas e não desenvolvidas, cujas sociedades têm baixos níveis de educação, cultura e civismo. Da mesma forma, o paulatino enfraquecimento das potências ocidentais se explica pela crescente cisão ideológica interna e perda de valores tradicionais, cívicos e cristãos após a introdução da ideologia socialista, particularmente, com sua exitosa pregação da contracultura em suas sociedades. A queda das grandes potências é algo histórico e começa pela decadência moral. No entanto, quando uma nação alcança um alto nível de desenvolvimento e superioridade militar e científico-tecnológica a decadência se arrasta por décadas ou séculos, como foi com Roma, Reino Unido e URSS.
O Brasil tem duas forças internas destrutivas. A liderança política fisiológica, não discutida nesse artigo, e a da revolução socialista permanente, ambas incompetentes para governar, corruptoras, corrompidas e aliadas de 2003 a 2016. A permanência da primeira ou a volta da segunda ao poder comprometerão a paz social, a unidade política, a grandeza moral e o futuro do Brasil.
Nunca antes na história desse país, uma aliança lhe causou tanto mal.
Fonte:   Ternuma

sábado, 20 de janeiro de 2018

A “Surpresita” Que Assusta os Venezuelanos

.
Nas pontes internacionais de Cúcuta, a uma semana concentram-se centenas de pessoas
 buscando chegar à Colômbia. - Foto de Julio Cesar Herrera.
por Rosalinda Hernández C.
transcorreram oito dias desde que o presidente Nicolás Maduro anunciou, em uma cadeia nacional de rádio e televisão, que tomaria medidas drásticas, como o fechamento aéreo e marítimo, ante a saída ilegal de produtos nacionais para as ilhas do Caribe - Aruba, Curazao e Bonaire - e que tem uma "surpresinha" pronta para a fronteira colombiana, isto é, Cúcuta e Maicao.
Em consequência, os efeitos não se fizeram esperar e em questão de dias a passagem de venezuelanos pelas pontes internacionais - Simón Bolívar e Francisco de Paula Santander - aumentou a ponto de gerar um colapso. Devido a isso, as autoridades colombianas de Migração e a Polícia Nacional tiveram que intervir e reorganizar as intermináveis filas que se formam e que tem até 300 metros de comprimento.
As ruas adjacentes à Aduana principal de San Antonio estão abarrotadas de transeuntes que correm buscando a saída para a Colômbia.  É o caso de Cesar Salazar a quem as declarações de Nicolás Maduro fizeram tomar a decisão de migrar junto a sua esposa.  “A situação que vive o país é aviltante. Nós decidimos ir para Bogotá, lá estão há cinco meses meus três filhos trabalhando. Maduro está alcançando seu propósito que não é outro que é fazer quem o conteste partir, que saiamos do país. Aqui ficam só os manipuláveis, os que se deixam dominar. Daí vem esses anúncios e ameaças que geram inquietude no povo que quer sair”, assegurou o venezuelano sentado junto a uma pilha de maletas.

Regressou para buscar a família 
As declarações de Maduro cruzaram a fronteira e chegaram até Bogotá, onde reside Ramón Meléndez, um venezuelano de 47 anos que, desde agosto foi trabalhar na capital colombiana para enviar dinheiro à sua família que ficou em Barquisimeto.
Ramón, na passagem por San Antonio, advertiu:  “venho para leva-los”, disse com notável preocupação a El Colombiano.  “Regresso para levar minha esposa e os meus dois filhos. As ameaças extremas e o temor que criaram as recentes declarações do presidente nos fazem pensar muito e é melhor sair antes que se invente qualquer coisa. Venezuela não vai mudar. O país está muito destruído”.
Também há a história de Nereida James que, enquanto se despedia de sua família na ponte internacional, avisou que adiantou a viagem por temor a um eventual fechamento da fronteira. “Entre meus vizinhos e alguns amigos, consegui vender meu carro, uma moto e todos os aparelhos eletrodomésticos da casa e móveis. Não tenho um plano definido, só queremos sair do país”, disse. 

Os mais prejudicados 
Ninguém tem claro na fronteira do que se trata a "surpresa". Sem dúvida, se especula que poderia ser uma manobra política ou um regime especial aduaneiro. O que está claro é que o caos que gerou segue latente.
Aqui ninguém sabe o que vem para a fronteira depois do anúncio do presidente. Não sabemos se a surpresa se trata da implementação de um regime econômico especial, controlado ou por cotas como funciona na Ilha Margarita ou qualquer outra situação. O presidente não pode ser irracional e desumano pretendendo fechar uma importante via de acesso de comidas e remédios ao povo venezuelano”, disse Edgardo Sandoval, empresário aduaneiro de San Antonio.
Ante a multidão que passa diariamente da Venezuela para a Colômbia, o prefeito do município colombiano Vila do Rosário, Pepe Ruiz, assinalou que serão redobradas as medidas de segurança nas imediações da ponte internacional Simón Bolívar.
Infelizmente tem aumentado o ingresso de venezuelanos nos último dias pela fronteira, muito mais do que estamos acostumados a ver na temporada dezembrina. Isto é devido ao grande problema que se apresenta na Venezuela”, disse.
Explicou que implementarão um plano de choque paraevitar que os que chega nos invadam os ginásios, ruas e praças. Os que estão sem documentos terão que ser deportados de novo ao seu país, informou o prefeito colombiano.
Ele também não descartou que após os anúncios de Nicolás Maduro se apresente um novo fechamento na passagem entre ambas as nações.

Contraponto
Um leve incremento no número de entradas e saídas de cidadãos nacionais e estrangeiros, cerca a 7% superior a outros meses do ano, se apresentou nas últimas semanas. Assim observou Christian Krüger Sarmiento, diretor geral de Migração a Colômbia, que indicou que este aumento obedeceria à dinâmica migratória que se apresenta na região durante a temporada de fim de ano, dado que na zona de fronteira a grande maioria das famílias estão compostas por cidadãos de ambos países ou, porque os cidadãos venezuelanos ingressam, durante estas datas, ao território nacional com o propósito de abastecer-se de alimentos e produtos de primeira necessidade, para passar estas festas.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano

sábado, 13 de janeiro de 2018

Verdades X Mentiras: O Exército na Construção da BR 174

.
por Telmo Travassos de Azambuja
A melhoria da infraestrutura fez parte das iniciativas para o desenvolvimento do país, no período de 1964 a 1984. 
A construção de rodovias como a BR 174, Manaus–Boa vista, com destaque para o trecho Caracaraí (RR)-Manaus (AM), possibilitando a ligação dos dois Estados, por inserir-se neste contexto, representou um passo importantíssimo para a consolidação da rede viária sul-americana e do sistema pan-americano de rodovias (Brasil, Venezuela, Uruguai, Argentina e Paraguai). Para que a BR 174 pudesse ser construída foi preciso criar, pelo Decreto Presidencial nº 63.184, em 27/08/1968, o 6º Batalhão de Engenharia de Construção, sediado em Boa Vista/RR. Posteriormente, em 1970, o DNER e o Exército Brasileiro assinaram convênio para que a BR 174 fosse construída. Tal ano é considerado o marco do início das ações efetivas para a construção da BR 174.
Cabe ressaltar que:
Ø No cenário da época vigorava a chamada “Guerra Fria” (de 1947 a 1991), tendo de um lado a liderança dos Estados Unidos da América – defensor do capitalismo e da democracia – e de outro a liderança da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), defensora do socialismo e do comunismo. Aliados na Segunda Guerra Mundial, suas ideologias contrastantes segmentaram a liderança política, econômica e militar mundial no pós-guerra. Foi neste contexto que o Governo brasileiro implantou projetos para segurança, integração e desenvolvimento da Amazônia, dentro de um planejamento geopolítico para a região, com base na doutrina de segurança nacional, com alinhamento ao capitalismo e à democracia;
Ø A ideia de construção de uma estrada nos moldes da BR 174 era antiga, tendo sido realizadas várias tentativas, todas sem sucesso: em 1847, em 1893 e em 1928. O ponto central deste desejo sempre foi a integração da Amazônia ao restante do país;
Ø Os waimiris-atroaris na verdade são dois grupos de índios, ambos do Grupo Kinja: os waimiris, que na época da construção da BR 174 eram liderados pelo tuxaua (líder, cacique ou capitão) Maroaga, e os atroaris, então liderados pelo tuxaua Comprido. A comunicação verbal destes grupos é a do ramo Karib. Os atroaris foram considerados mais belicosos do que os waimiris, talvez pela influência do temperamento de seu líder Comprido, mais jovem e sem a maturidade de Maroaga (na faixa dos sessenta anos de idade, na época). Os grupos eram unidos, mesclados, sendo que a companheira de Comprido era filha de Maroaga.
É importante considerar que desde a segunda metade do século 19 a área por onde passaria a rodovia BR 174 serviu de palco para recorrentes conflitos entre os índios waimiris-atroaris e garimpeiros, caçadores, castanheiros, tartarugueiros e aventureiros de todo tipo, bem como com a polícia militar do Amazonas, esta especialmente atuante nos anos 60. A justificativa da PM do Amazonas de interferir no contato com os waimiris-atroaris deveu-se à proximidade de algumas aldeias com a capital Manaus. Em 1968 uma das mais conhecidas expedições para consolidar a aproximação com os índios waimiris-atroaris (dentro das iniciativas denominadas “frentes de atração”, coordenadas pela FUNAI, que substituiu o SPI – Serviço de Proteção ao Índio), foi liderada pelo padre e antropólogo italiano Giovanni Calleri. Onze pessoas fizeram parte de referida expedição, sendo que dez membros da expedição foram mortos pelos waimiris-atroaris, sem nenhuma chance de defesa. O único sobrevivente foi o mateiro Álvaro Paulo da Silva, conhecido como Paulo Mineiro.
Calleri foi alertado por Paulo Mineiro que em função do comportamento rude e teimoso com que estava lidando com os índios havia uma ameaça à vida dos membros da expedição. Apesar do aviso e da insistência do citado mateiro, Calleri não lhe deu a devida importância. Então, Paulo Mineiro decidiu abandonar a expedição para salvar a sua vida. No dia em que Paulo Mineiro fugiu, todos os demais membros da expedição foram mortos pelos índios, alguns enquanto dormiam. Segundo relato de Paulo Mineiro, ele foi perseguido pelos waimiris-atroaris ao longo de alguns dias. Somente logrou sobreviver por causa da sua inegável experiência e competência em lidar com a realidade da selva. O sobrevivente Paulo Mineiro, no período em que estive comandando a construção do trecho da estrada pertinente ao Destacamento Norte, foi um dos mateiros com os quais eu contava. Tive a oportunidade única de ouvir dele mesmo, detalhes do ocorrido na Expedição Padre Calleri. Lamentavelmente, após a minha saída, ele faleceu em decorrência de um acidente, quando prestava serviços de manutenção da estrada. Com ele se foi a memória dos detalhes do ocorrido no massacre dos membros da expedição.
Durante a construção da BR 174 há evidências objetivas de 23 (vinte e três) mortes de colaboradores, sendo que 15 (quinze) delas foram decorrentes de ataques de emboscada pelos waimiris-atroaris. Na área de responsabilidade do Destacamento Norte nunca revidamos, molestamos, ferimos ou matamos um índio. Nossos contatos com índios e informações sobre eles eram sempre através da FUNAI. Nosso lema era o mesmo de Rondon: “morrer, se preciso for, matar, nunca”. Nós é que estávamos cortando as terras que eles consideravam ser deles. A atuação da FUNAI ocorria apenas de forma pacífica, sem violência.
Outras iniciativas geradas pelas “frentes de atração”, coordenadas pela FUNAI e seus sertanistas, tiveram sucesso, embora relativo, pois os waimiris-atroaris tinham comportamento notoriamente ambíguo (momentos de aparente receptividade e outros com doses de agressividade). Tal variação de conduta dos waimiris-atroaris provavelmente foi consequência dos contatos e conflitos (segundo pesquisadores, desde 1856), com os invasores já citados no início deste texto.
A construção da BR 174, iniciada em 1970, marcou a efetiva presença do Exército Brasileiro numa área com histórico de conflitos, num ambiente hostil não gerado nem fomentado pelos militares. Tal cenário de atritos, com aproximações e tentativas de aproximação, por décadas, gerou sequelas para todos. As sequelas ocorreram, tanto no lado dos índios quanto no lado de civis e militares, pelas mais diversas razões (conflitos físicos, mortes, doenças como gripe, malária e outras decorrentes da presença de estranhos no bioma natural da região). Presenciei, numa das chegadas de um grupo de waimiris-atroaris no posto da FUNAI na área do Destacamento Norte, em 1976, que vários índios estavam com sarna, que pegaram de seus cachorros. É importante destacar que epidemias oriundas de contatos dos índios com invasores de seu território já eram conhecidas há muito tempo. Por exemplo, há registros de que em 1926 dezenas de waimiris-atroaris morreram por causa de uma epidemia de gripe.
Apesar das conhecidas quinze perdas humanas causadas pelos waimiris-atroaris ao longo da construção da BR 174, reitero que nenhum ataque aos índios nem qualquer morte de um índio ocorreu por ação do Destacamento Norte do 6º B E Const, Unidade que comandei com muito entusiasmo e energia.
O Exército matou índios durante a construção da BR 174?
É uma pergunta que precisa ser respondida por quem viveu a situação ou por quem analisa informações confiáveis, de forma isenta, e não por pessoas que teorizam sobre a questão. Com a autoridade de quem comandou o Destacamento Norte do 6º B E Const nos anos 1976 e 1977 (portanto, nos dois últimos anos de construção da BR 174) reafirmo que nenhum índio foi morto por ação militar, em toda a área que cobrimos. As mentiras em contraponto ao que afirmo são revoltantes, disseminadas por meios de comunicação viciados, por pessoas desinformadas ou ideologicamente fanatizadas, considerando apenas as versões que lhes convêm. Na enorme área que abrangeu minha participação na condução das atividades do Destacamento Norte eu asseguro que tratamos os índios de maneira respeitosa, mesmo após termos sido agredidos. Antes de ocuparmos a Amazônia os índios já estavam na terra que chamamos Brasil.
Na área e no período em que estive na liderança da construção da estrada, até a sua conclusão, dou meu testemunho de que a atuação do Exército foi digna, competente, honesta e altamente profissional. Orgulho-me deste período da minha vida. Vi subordinados adoecerem, alguns morrerem, outros superarem extremas dificuldades, tudo para o bem do Brasil e dentro dos princípios éticos, de cidadania, de patriotismo, de respeito ao próximo, de disciplina, que caracterizam a formação de qualquer militar. Eu também passei por momentos delicados, de grandes riscos e graças a Deus os superei. Trabalhamos vinte e quatro horas por dia, durante todos os anos da construção, equipes de dia e de noite, sem parar. Paradas apenas no período das chuvas torrenciais, que aproveitávamos para manutenção dos equipamentos, capacitação do pessoal e planejamentos. Nenhuma hora-extra ganhamos ou reivindicamos ao longo do nosso trabalho. O que ganhamos, dinheiro não compra.
A conclusão da BR 174 ocorreu em 06 de abril de 1977, dia do histórico e inesquecível encontro entre as frentes Sul (Destacamento Sul, responsável pela construção no sentido Manaus–Boa Vista) e Norte (Destacamento Norte, responsável pela construção no sentido Boa Vista–Manaus) do 6º B E Const. Eu estava presente no local (Km 356,4) deste encontro e não é possível transformar em palavras a sensação, o orgulho da missão cumprida, o sentimento de ter concluído um esforço de muitos anos, conquista de muitas pessoas.
O resultado prático da construção da BR 174 nos leva aos seguintes fatos :
Ø Índios morreram, mas não por causa ou ação direta de militares do Exército Brasileiro. Pelo menos na área em que eu atuava isso nunca aconteceu;
Ø Dos 23 (vinte e três) mortos da equipe de construção, 15 (quinze) foram mortos de maneira covarde (emboscada) pelos waimiris-atroaris;
Ø A integração por rodovia com o resto do Brasil e o desenvolvimento de Roraima, tornaram-se realidade;
Ø A magnitude da obra e a capacidade de superação técnica e física dos obstáculos enfrentados com sucesso, é motivo de orgulho para o Brasil, para o Exército Brasileiro como um todo e, particularmente, para a sua Engenharia e logística (Intendência).
O momento atual pelo qual passa nosso país, também merece algumas considerações:
Ø Durante o período em que membros do Exército Brasileiro lideraram os rumos do Brasil, muito foi realizado, bastando buscar os registros do período, sendo que o principal objetivo (evitar que comunistas pró-Cuba e União Soviética destruíssem o Brasil) foi alcançado;
Ø Quando os militares tinham o poder de decisão em suas mãos, democraticamente, nunca se aproveitaram para elevar salários ou gerar benesses próprias. Os salários dos militares sempre foram baixos comparativamente com outros segmentos. Nenhum poderoso militar enriqueceu às custas do dinheiro do povo;
Ø De 1984 até o presente momento, os militares continuaram com baixos salários, sofreram grandes quedas em seus orçamentos e ainda passaram a ser tratados com desrespeito pelos ocupantes do poder;
Ø Está sendo alimentado pelos poderosos do momento, a maioria oriunda de grupos ideológicos ultrapassados, simpáticos a movimentos antidemocráticos e buscando interesses materiais próprios, um preconceito contra os militares e até retaliações;
Ø O povo brasileiro tem orgulho de suas Forças Armadas e boa parte sonha para que assumam novamente as rédeas da nação;
Ø Mentiras são espalhadas, sistematicamente, para desmerecer o comportamento e os feitos do Exército Brasileiro (seminários, jornais, filmes, novelas, programas de entrevistas etc) quase como um mantra, uma orquestração;
Ø Certas análises de valor e de versões dos fatos deixam de levar em conta o cenário, o contexto no período de construção da BR 174, gerando conclusões distorcidas da realidade;
Ø Testemunhos e informações coletadas são analisados e levados em conta desde que sirvam de justificativas para o demérito do Exército Brasileiro e do Governo daquela época.
O exposto neste texto tem por objetivo trazer uma parte da verdade à tona, tendo como foco a BR 174, particularmente quanto à atuação do Destacamento Norte do 6º B E Const, no período de 1976 e 1977, neste momento em que se divulgam inverdades, mentiras deslavadas, da tal “verdade alternativa”, das meias-verdades, do cinismo, da hipocrisia, de distorções e manipulações de dados e informações, visando interesses sórdidos de pessoas e grupos que assaltam a nação sem nenhuma piedade com seu povo, tão deseducado para entender o quanto é manobrado, o quanto é incapaz de separar o joio do trigo.
Espero que um dia uma verdadeira “Comissão da Verdade” exponha para a nação o fiel retrato do que ocorreu e do que está ocorrendo.
Rio de Janeiro – RJ, 23 de outubro de 2017
Telmo Travassos de Azambuja é
Capitão de Engenharia Res Não Rem-AMAN/1969
Guerreiro de Selva nº GS 0418.
Engenheiro civil e Pós-graduado, com especialização em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal de Pernambuco.
COMENTO: o texto não é "opinião", nem reportagem de "ouvir dizer"! É um relato de quem viveu os fatos que está narrando, portanto digno de toda credibilidade.

domingo, 31 de dezembro de 2017

O Indulto a Fujimori

.
O Peru é uma sociedade dividida, e não há elementos de coesão à vista. Kuczynski já perdeu seu crédito. O indulto a Fujimori, de novo, deixa ver a dupla medida frente aos DD.HH.
Dezessete anos depois de sua renuncia à Presidência do Peru, Alberto Fujimori segue sendo o grande fator de divisão da sociedade em seu país.
Exerceu o cargo durante dois mandatos. Após o primeiro deles, donde passou de um desconhecido engenheiro agrônomo, solitário candidato e imprevisto triunfador contra Mario Vargas Llosa, foi reeleito em 1995 por ampla maioria. Havia logrado uma recuperação econômica e deixou à beira da extinção o grupo terrorista Sendero Luminoso, uma agrupação de extremistas de exacerbado instinto criminoso que mantinha em xeque à institucionalidade peruana.
Vladimiro Montesinos
ao centro
Sem dúvida, sua segunda administração, devorada pela corrupção, os abusos de poder, as violações aos direitos humanos e, sobretudo, a nefasta influência do chefe dos Serviços de Inteligencia, Vladimiro Montesinos, que corrompeu a praticamente toda classe política peruana, empurraram Fujimori a renunciar via fax desde o Japão, para onde viajou buscando eludir as responsabilidades judiciais que já se acercavam.
Em paralelo ao repudio de boa parte da opinião pública, das organizações defensoras dos direitos humanos e à vergonha que significou para o Peru a descoberta paulatina dos desaforos do regime Fujimori-Montesinos, se manifestava também uma corrente política que não escondia sua adesão às políticas executadas pelo ex-mandatário. Corrente que não só se manteve, e que nas eleições presidenciais do ano passado, liderada por Keiko Fujimori, esteve a ponto de regressar à Presidência. Não obtiveram o poder Executivo, mas sim o controle do Legislativo. Sua maioria no Congresso mantém o atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski, em situação de ingovernabilidade e, finalmente, empurraram a que o Chefe de Estado cedera e descumprisse uma de suas promessas de campanha: que não indultaria a Alberto Fujimori.
O indulto ocorreu à noite, na véspera do Natal, esgrimindo razões humanitárias pelo mau estado de saúde do ex-presidente. Fujimori havia solicitado a graça presidencial na segunda semana de dezembro, enquanto no Congresso se preparava a abertura de um processo de declaração de afastamento presidencial contra Kuczynski pelos vínculos de uma empresa sua com Odebrecht na década passada, e que o presidente ocultou. Não foi cassado do cargo porque dez parlamentares fujimoristas, encabeçados por Kenji Fujimori, se abstiveram de votar. Horas depois, Kuczynski liberou Fujimori-pai da prisão. 
O presidente em exercício do Peru está fazendo todo o esforço por fazer ver sua decisão como tomada para proteger o interesse superior nacional. Ninguém acredita. É só política. É sua sobrevivência no cargo, assim, foi levado a sacrificar sua precária bancada no Congresso. Vários aliados anunciaram sua saída da coalizão governamental. 
Fujimori levava dez anos na prisão, condenado a 25, por delitos de lesa humanidade. Ontem (26/12) pediu perdão “aos compatriotas que ludibriei”. Pagou mais cadeia efetiva que a que pagarão, por exemplo, os que na Colômbia se verão beneficiados pelas normas da Jurisdição Especial de Paz. Aquele cometeu seus delitos desde o Governo, amparado na estrutura institucional do poder, o que lhe faz merecedor de um julgamento jurídico e moral mais severo. 
Seu caso, como outros tantos, revela também como a suposta proteção aos direitos humanos se subordina a interesses políticos, e também como alguns dos que dizem defender esses direitos humanos só se alarmam quando a impunidade ampara aos que não são de sua própria corrente ideológica. 
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: por aqui, também os interesses ideológicos, mais que os humanitários, fundamentam as decisões sobre indultos e anistias. A própria Lei de Anistia, de 1979, foi questionada mais de uma vez por incluir em seus beneficiários os agentes do Estado que combateram os terroristas criminosos de meados do Século passado. Enquanto autoridades se prestam a homenagear de diversas formas Gregório Bezerra, Marighella, Lamarca e outros criminosos sanguinários, heróis como o Coronel Ustra sofreram perseguição por meio de processos que os desgastaram e fizeram com que gastassem seus parcos recursos com advogados para se defenderem em processos sem fundamento, movidos com o único objetivo de os desgastarem. Mais recentemente, enquanto o ladrão condenado Paulo Maluf, capitalista e apoiador da "dita-mole", é recolhido ao xadrez - muito correta e tardiamente -, independente de sua idade avançada e seus problemas de saúde e o empresário Luis Estevão, outro capitalista explorador, cumpre sua pena sem tungir nem mugir; vemos outros condenados entrarem e saírem das celas (Garotinho et caterva; Genuíno, Zé Dirceu, Pizzolatto, mais recentemente, e outros), sem contar os que como o Cachaceiro Maldito que ainda não enfrentaram o xilindró, favorecidos por decisões unicamente justificadas pela simpatia ideológica. Na cadeia, mesmo, só o Vaccari porque não encontraram um meio de livrar sua cara e o abobado Marcos Valério, que acreditou que "alguém" livraria sua cara.
.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Militar, a Obediência e a Cidadania

por Sérgio Pinto Monteiro*
Recentemente, o General Villas Bôas, digno e respeitadíssimo Comandante do Exército Brasileiro, em seu Twitter, relembrou Samuel Huntington, consagrado economista e pensador americano, professor de Ciência Política das Universidades de Harvard e Columbia: 
"A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares; mas quais serão os limites da obediência?" E conclui o ilustre chefe militar: “O Estado, ao nos delegar poder para exercer a violência em seu nome, precisa saber que agiremos sempre em prol da sociedade da qual somos servos.
Excluídas, por inverídicas, as manifestações de alguns esquerdopatas de que a referida postagem seria uma ameaça à democracia, o tema, deveras polêmico, nos remete a algumas indagações e reflexões.
Caberia às Forças Armadas, diante de um quadro de caos social - e institucional - agirem em defesa da nação? (leia-se da sociedade nacional, ou ainda, do povo brasileiro). A resposta, positiva e óbvia, está muito clara na postagem do General Villas Bôas. E o que seria um cenário de caos social? População desassistida pelo poder público? Hospitais abandonados e à míngua? Ensino público em estado calamitoso? Funcionários públicos sem pagamento? Banditismo generalizado nas ruas? Criminosos, altamente organizados e armados, derrotando a polícia na guerrilha urbana? População acuada, impedida de sair à noite, enjaulada em suas casas e sem a opção de portar uma arma em busca da defesa que o Estado é incapaz de lhe proporcionar? Propriedades rurais - e até urbanas - invadidas, lavouras destruídas, criações dizimadas - impunemente - por “movimentos sociais” que se autoproclamam “exércitos”, sob a complacência e conivência de diferentes níveis de autoridades? Doze milhões de desempregados? Definitivamente, o caos social já é uma triste realidade em nosso país.
E a insegurança institucional? Confronto entre poderes? Já os temos, explicitamente. Membros dos Legislativos - federal, estadual e municipal - comprometidos com a corrupção e crimes correlatos? São notórios. Governantes dos Executivos - nos três níveis - incompetentes, ineficientes, desacreditados, desmoralizados, envolvidos em todo tipo de tramoias, muitas vezes presos ou denunciados? Basta ver a mídia diária e as pesquisas populares. Integrantes do Judiciário, em especial das mais altas cortes, exercitando o seu poder e sabedoria jurídica - muitas vezes duvidosa - para proteger e dar guarida a políticos, administradores, empresários e governantes corruptos, postergando julgamentos, anos a fio, em busca de prescrições fraudulentas e outras benesses? Tudo isso, e muito mais, configura uma reconhecida e constrangedora realidade. Não seria, então, o caos institucional?
Dir-se-á que órgãos como o Ministério Público e a Polícia Federal estão combatendo a criminalidade, ao lado de alguns membros do Judiciário. É verdade. São patriotas que, dignamente, enfrentam todas as dificuldades imagináveis para processar e punir os quadrilheiros que de há muito se apossaram do país. Estão enfrentando bandidos muito poderosos, governantes, legisladores e até julgadores. Tememos por eles e suas famílias.
Resta-nos abordar a situação dos militares. Anos atrás, quando se iniciou a era populista no Brasil, as forças armadas foram alijadas do centro do poder nacional com a criação do Ministério da Defesa. Venceu a doutrina de que os militares devem estar submetidos ao poder civil. Foram anos de ofensas, agressões, inverdades e até humilhações. Comissões da Verdade foram implantadas, onde a verdade era o que menos importava. Tentaram, inutilmente, denegrir o Exército Brasileiro e impuseram dor e sofrimento a antigos combatentes - e seus familiares - cujo único “crime” foi cumprir o seu dever e o juramento de defender a Pátria.
Hoje, aqueles derrotados do passado e seus aliados oportunistas, que se apoderaram do país e implantaram o caos em que vivemos, ainda temem os princípios e valores que norteiam as ações e sentimentos dos militares. Como detêm o poder, controlam a mídia e mantêm ativas as rotinas gramscistas. Por isso, o pavor diante de eventuais manifestações de militares. Os políticos da oposição vociferam diuturnamente contra o atual governo federal. Não poupam o presidente da república, ministros de estado e seus métodos de governo. A todo o momento os acusam, livre e impunemente, da compra de votos de parlamentares, negociatas e outras supostas falcatruas. Afinal, segundo os opositores, estamos num regime democrático onde a liberdade de expressão é o esteio do estado de direito. Mas bastou um - apenas um - militar da ativa, em traje civil, num ambiente fechado, manifestar a sua opinião, para provocar a ira dos poderosos, os mesmos que fogem da palavra “pátria” como os vampiros de Hollywood fogem da cruz. Teria o General Mourão que, repito, fez um comentário em seu nome pessoal, infringido o Regulamento Disciplinar do Exército? Não me cabe julgar. Mas defendo o inalienável direito do brasileiro Hamilton Mourão, em pleno gozo de sua cidadania, após mais de quarenta anos de excelentes serviços prestados ao exército e à nação, expressar o seu desencanto sobre o infortúnio que se abateu sobre o nosso país.
Ao concluir essas breves reflexões, reitero as palavras de Samuel Huntington tão bem lembradas pelo Comandante do Exército Brasileiro: "A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares; mas quais serão os limites da obediência?(grifo meu). 
* membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil,
da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.
COMENTO:  Este é um assunto muito incômodo aos militares pois envolve a relativização de valores como disciplina e hierarquia, considerados pilares fundamentais ao segmento castrense da sociedade. tratamos sobre ele aqui e vimos que não só no Brasil, alguns incidentes mostram que Comandantes Militares sempre aceitam ser comandados por civis, desde que esses não extrapolem suas atribuições colocando o país em risco. Já tivemos alguns casos em que Oficiais Generais expuseram, com a franqueza peculiar dos que labutam na caserna, seus pontos de vista divergentes de autoridades civis. Os políticos não gostam de enfrentar essa verdade: cargos políticos são temporários, cargos militares são vitalícios. A profissão Militar é a única que exige o juramento de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Pode parecer demagogia, mas é a verdade. Não há cidadão mais preocupado com os destinos da Nação do que um militar consciente de seu papel social ante a Pátria.
Lembro duas frases marcantes na História do Brasil, formuladas no início do século passado. A primeira do General Bertholdo Klinger (1884-1969), que referindo-se a importância do cargo de chefe do Executivo diz: “O posto supremo do País é problema de Estado-Maior.
A outra frase é do também General, Pedro Aurélio de Góis Monteiro (1889-1956), em seu livro A Revolução de 30 e a Finalidade Política do Exército: (...) sendo o Exército um instrumento essencialmente político, a consciência coletiva deve-se criar no sentido de se fazer a política do Exército e não a política no Exército. A política do Exército é a preparação para a guerra e esta preparação interessa e envolve todas as manifestações e atividades da vida nacional, no campo material — no que se refere à economia, à produção e aos recursos de toda a natureza (...).
.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Colômbia - Valores Invertidos

.
A vergonhosa e inoportuna manifestação, sem propósito e incompatível com os fatos, além do histórico do delinquente, apresentam muitas questões a uma sociedade onde ainda se busca exemplo em bandidos e corruptos.
As imagens falam por si: centenas de pessoas acompanham o féretro de Luis Orlando Padierna Peña, vulgo "Inglaterra", chefe do "Clã do Golfo", na tarde de segunda-feira (27/11/17) no município de Carepa. Alguns assistentes levam balões brancos e vestem camisetas onde se lê: "Viverás para sempre em nossos corações". A Polícia Nacional, que abateu na semana passada a esse conhecido delinquente, vigia para que não haja distúrbios nem excessos entre a multidão.
Já no sábado e domingo anteriores havia ocorrido manifestações similares quando o cadáver chegou a essa localidade do Urabá Antioquenho. Caravanas de automóveis e motocicletas a partir das quais era louvada a figura de um homem com um prontuário revelador de suas realizações e qualidades: aparecia na Lista Clinton por operações financeiras de lavagem de dinheiro; estava pedido em extradição para os EUA por tráfico de cocaína; em 2001 esteve preso por homicídio e fugiu da cadeia; liderava a "Frente Carlos Vásquez" do Clã do Golfo e se mudou para a fronteira com Venezuela para estabelecer corredores de drogas e outras atividades ilícitas da organização.
Em sua perseguição, em agosto de 2015, um helicóptero da Polícia caiu na zona rural de Carepa, causando a morte de dezessete agentes. Mais ainda, sendo parte da cúpula dessa quadrilha era, também, responsável pelo "plano-pistola" [NT: série de assassinatos seletivos] que entre abril e maio passados deixou dez policiais mortos e 37 feridos.
¿O que estará acontecendo com um país onde um grupo considerável de cidadãos vai ao enterro de um criminoso tão daninho e perigoso, para despedi-lo como se fosse um herói?
A primeira explicação que surge é a universal, histórica e cultural, da fascinação e identificação de comunidades e cidadãos com vilões e anti-heróis com máscaras de benfeitores dos despossuídos, que protagonizam resistências e atos de violência e desacato contra outros poderes e setores, legais ou ilegais.
Na história da Colômbia proliferam figuras surgidas de levantes e projetos contra-estatais e paraestatais, e de fenômenos de delinquência que, em diferentes momentos e conjunturas, obtiveram a atenção, simpatia ou submissão de camadas da população, nem sempre marginais periféricas ou desatendidas.
A romaria por "Inglaterra" não nos mostra somente pessoas de estratos afetados pela pobreza e a miséria. Vimos alguns comerciantes e outros urabaenses cuja esfera sugere identidade mais preocupante, com os delitos e a ilegalidade.
É nessa Colômbia em que a bandidagem e a corrupção fizeram carreira como estados de "normalidade e enriquecimento aceitáveis" e que motivam admiração e reflexo. Crimes que não provém só de atores fora da lei, mas também de dentro da ordem e até mesmo do Estado.
A multidão que carrega e corteja o ataúde de um delinquente de larga carreira obriga a pensar nas responsabilidades institucionais públicas e privadas, na tarefa individual e coletiva de liderança e no desafio como sociedade e Estado que temos, para desmontar tantos valores invertidos e essa atitude de anomia (indiferença e passividade) ante o ilegal e o antiético.
Não podem ser pabloescobares, carloscastaños, inglaterras e outroras timochenkos”, nem tampouco os fraudadores do erário, os que convoquem e sirvam de guia, exemplo e inspiração para um país necessitado de dar o salto para a modernidade, os direitos e à paz, em uma democracia legítima.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO:  esta inversão de valores não é privilégio dos colombianos. Por aqui, também temos uma grande parcela da população que não tem pejo em demonstrar sua simpatia para com bandidos de toda espécie. Os maus exemplos vão desde os que - apesar de todas as provas, jurídicas ou não - se negam a aceitar a culpa de grandes ladrões do erário, chegando a nomina-los de "guerreiros do povo brasileiro", até os traficantes e chefes de milícias que se adonam das favelas por todo o país, com a cumplicidade da população que se nega a auxiliar as autoridades omitindo informações que as levem a esses criminosos chegando aos "protestos" por ocasião da prisão ou morte desses bandidos. A cultura popular é dinâmica, e na América Latrina essa dinâmica conduz à estrumeira!
.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Os Contêineres com Cocaína Colombiana

por Javier Alexander Macías
Nos últimos 15 dias de julho passado Jairo Chaverra(*) andou pelas ruas de Cartagena com três escoltas, seis pistolas na cintura e uma sentença sobre suas costas: ou pagava a “seus sócios” os 820 quilos de cocaína que a Polícia lhe apreendeu, ou sua esposa o iria visitar em qualquer cemitério da costa colombiana.
A carga “caiu” por um defeito na solda do piso do contêiner onde seria transportada a “mercadoria” e os policiais descobriram a tramoia. Eram 440 quilos de cocaína que terminariam em um dos portos da Europa, inundando de pó branco as ruas das cidades aditas ao químico mortal.
"O resto da encomenda estava no que chamamos 'creche', que é uma casa próxima aos portos, mas com a queda do primeiro carregamento [os policiais] chegaram aos 380 quilos que tínhamos no esconderijo", diz Jairo. 
Após a apreensão veio a captura, uma ameaça dos "narcos", e um pacto de proteção de testemunhas com as autoridades que por enquanto o mantém fora da cadeia em troca de revelar as rotas e donos de carregamentos ilícitos que saem camuflados em contêineres desde os diferentes portos de Barranquilla, Santa Marta, Cartagena e Urabá para América Central e do Norte, Europa e Ásia.
Contaminar os contêineres 
Introduzir a droga em um contêiner é uma tarefa que só pode demorar entre cinco e oito minutos. Como em uma colonia de formigas, os obreiros dividem o trabalho para cumprir esse prazo, e se demorarem mais, os “contaminadores” correm o risco de serem capturados pela Polícia ou pela Armada (Marinha) e, assim, derrubar-se um império ilegal que segundo investigadores da Armada Nacional deixa um lucro de 890 por cento.
Desestimular e combater um negocio em cujo investimento se obtém ganhos tão altos é uma tarefa extremadamente difícil. As contas, obtidas pela Inteligencia da Armada e a Polícia, são sensíveis: toda a operação de compra e embarque de 100 quilos de droga ascende a um custo médio de 760 milhões de pesos (cerca de 760 mil reais). Se essa droga logra penetrar no mercado europeu, o valor da venda final será de $9.314.250.000 (aproximadamente 9,3 milhões de reais). Descontando as comissões estimadas em mais de $1.820.512.500 milhões de pesos, o lucro bruto para o narcotraficante é de 7,493 bilhões de pesos (ou 7,4 milhões de reais).
Em um vídeo obtido por El Colombiano e gravado em uma missão de infiltração da Armada, seis pessoas, em uma operação relâmpago, metem 20 quilos de cocaína em um contêiner carregado de pratos plásticos. No trabalho, dois homens rompem um lacre que indica que aquela carga já havia sido revisada e tiram parte das caixas, o manobrista de uma grua eleva os que romperam o lacre até a parte superior do caminhão, outro sujeito lhes passa duas sacolas negras com “a mercadoria” para metê-las no mais profundo da carga legal, e um operador logístico de aduanas tranca as portas do contêiner e põe outro lacre falso de fiscalizado, antes de que o contêiner seja embarcado para a Europa.


É justamente aí onde entra Jairo. Na hierarquia do narcotráfico, seu papel é de “coordenador”. Sua função primordial consiste em “contaminar” os contêineres de frutas ou produtos que serão exportados com os carregamentos de cocaína. Este trabalho, diz ele, lhe fez ganhar grandes quantidades de dinheiro, mas também “perder muita grana quando cai a encomenda” e tem que pagar à vista ou com sua vida. Seu último ganho bruto, assegura, foi de $500 milhões de pesos.
Eu tenho gente que são operadores logísticos de empresas de aduanas que trabalham comigo. Eles me informam quais contêineres estão disponíveis, qual é o destino, o percurso e em qual barco serão levados”, comenta Jairo, e acresce que com ele trabalham policiais antinarcóticos que lhe passam informação para que o contêiner seja contaminado sem inconvenientes.
Além disso, consegue as planilhas de viajem, as rotas, os lacres que serão substituídos quando a droga esteja camuflada nos carregamentos legais de empresas que desconhecem que junto a seus produtos vai uma carga ilegal.
Para confrontar a versão de Jairo, El Colombiano buscou a versão da DIAN encarregada da Sociedade de Intermediação Aduaneira, SIA, onde segundo o “coordenador” se conseguem os lacres e as planilhas e de lá nos remeteram à Polícia Antinarcóticos. Também buscamos a versão da diretora de Aduana a quem enviamos as perguntas, mas não foi possível a entrevista com a funcionaria.
Ainda buscamos a versão da Polícia Antinarcóticos sobre a denuncia de policiais implicados e a segurança nos portos. Em três ocasiões se conversou com o General José Ángel Mendoza, Chefe dessa unidade, que adiou o encontro alegando compromissos de suas funções policiais. Depois de oito chamadas e mensagens no celular, não respondeu ao solicitado. 
Revisão, ponto vulnerável 
A rota mais cômoda para este elo da cadeia do narcotráfico é Cartagena-Puerto Limón, Costa Rica, porque segundo Jairo, “a Polícia e outras autoridades civis de lá trabalham [aceitam] mais fácil com cargamentos de cocaína que as mesmas autoridades colombianas”.
Esconder droga entre carregamentos legais que sairão do país não é um assunto novo, sem dúvidas, se converteu em uma das modalidades mais exitosas para tirar a coca da Colômbia, pois como explica o Contra-Almirante da Armada, Francisco Herrera Leal, no mundo se movem cerca de 600 milhões de contêineres ao ano, e destes, só se revista uns 12 por cento, quer dizer, 72 milhões. (Dados do Banco Mundial registraram que em 2014 o movimento foi 679.254.658).
Na Colômbia a situação não é diferente. Segundo o alto oficial naval “a carga comercial legal usa a mesma rota da ilegal. Cartagena é um dos portos que mais move carregamentos, cerca de 7 milhões de toneladas (segundo a Superintendência de Portos e Transporte foram 7.881.745 em exportação em 2016), e dessa grande quantidade se inspeciona cerca de 2 por cento (140.000), e ao fazer isso, realmente temos uma grande brecha para que saia mais droga”.
Para contrastar este fenômeno, diz o Contra-Almirante, estamos realizando trabalhos aliados com a Polícia Nacional.
Quando avaliamos o tema portuário nos chama a atenção essa grande quantidade de droga apreendida pelas agencias da Europa, e sobretudo em um porto muito específico que é Amberes (Bélgica). Estamos fortalecendo nossas capacidades nos portos para entender o significado do padrão dos contêineres, o quê significa o padrão de empresas e com base na Inteligencia tratar de focalizar nosso esforço para um tipo de contêineres que, com a Polícia, possamos inspecionar e obter resultados”.
Herrera explica que graças à cooperação internacional puderam cruzar contas com agencias estrangeiras como a aduana francesa, os alemães, o MAOC (Maritime Analysis and Operationnns Centre Narcotics em inglês) de quanta droga apreendida na Europa era proveniente da Colômbia e estabeleceram que entre 2015 e 2016 foram confiscadas 30 toneladas.
Segundo o Almirante, com dados de investigação do SIMCI e EUA sobre a base de quantidade de cultivos de uso ilícito que há na Colômbia, e partindo do cálculo de que um hectare de coca produz 2 quilos de cloridrato de cocaína, estimaram que em 2016 houve uma produção de 646 toneladas no país, 160 das quais possivelmente saíram pelo Caribe. Continuando com as contas, da possível saída das 160 toneladas de drogas se capturaram só 30, um porcentual de 18,75 por cento de eficiência.
Há que seguir trabalhando e potencializando as capacidades de Inteligencia. Temos especialistas em veleiros, em lanchas go fast, mas nos temas de contêiner e portos ainda estamos elaborando este conhecimento e temos que ser mais fortes nisto para lograr neutraliza-lo”, conclui o Contra-Almirante Herrera. 
As outras modalidades 
Orlando(*) é um dos investigadores mais experientes da Polícia no tema de narcóticos no mar. Em suas pesquisas aos narcos descobriu que entre as formas de carregar coca, os donos dos carregamentos tem varias modalidades. Uma delas é a que as autoridades chamam parásitos (parasitas), ou seja, prendem na parte física da embarcação e abaixo da linha d'água, barriletes ou outros elementos carregados com droga.
Sem dúvida, para o investigador há outra modalidade que vem crescendo: o veleiro. “Eles utilizam tudo que sirva para navegar. Descobrimos que há velejadores que vem de outros países, que em teoria estão fazendo turismo e chegam provisoriamente para abrigar-se ou para logística, mas tem que ver com o narcotráfico.
Orlando afirma que no acompanhamento feito a estas pequenas embarcações e através do intercambio de informação com agencias internacionais, nos países de registro dos veleiros eles eram dados por perdidos. Esta é a importância da comunicação com essas agencias para obter melhores resultados”. 
Uma luta que não para 
O último contêiner contaminado com uma grande quantidade de droga caiu faz alguns dias (4 Nov 17). Em um carregamento de peles de animais que saía para a Europa, a Polícia Antinarcóticos e a Armada apreenderam 1.891 quilos de cocaína. A procura durou quatro horas até que no fundo da carga encontraram a coca recoberta com borracha para o caso de ter que lançá-la ao mar por pressão das autoridades.
A droga ia metida em uma carga de peles porque estas geram um odor característico que evita que possa ser detectada por nossos cães. Sem dúvida, a pericia dos policiais do porto foi fundamental para descobri-la”, explicou o General José Ángel Mendoza, em entrevista coletiva de imprensa.
O oficial indicou que este carregamento estava marcado com diferentes logotipos, pertencentes a vários grupos que se uniram para envia-lo, modalidade que vem sendo utilizada e que pode pertencer a quadrilhas como o “Clan del Golfo”, os “Pachenca” ou até mesmo as dissidências das FARC que permaneceram com o negócio da coca.
Jairo, o “Chacho”, o coordenador de remessas que acumulou uma fortuna contaminando contêineres com drogas, assegura que desta vez não teve que ver com a delação deste carregamento. Por enquanto, passa seus dias em uma das grandes cidades da Colômbia evitando a execução da sentença de morte que seus inimigos lhe impuseram.
OBS: (*) Nomes trocados por segurança.

EM RESUMO:
Os narcotraficantes usam os portos da Colômbia para a coca produzida, aproveitando o baixo controle existente neles. A cocaína é camuflada em contêineres de frutas ou outras mercadorias.
Sequência de ações:
1. Compra de 100 quilos de cocaína que serão enviados ao exterior por 500 milhões de pesos.
2. Pagar 100 milhões de pesos ao coordenador para contaminar o contêiner com os 100 quilos de coca.
3. A reunião e o transporte dos 100 quilos de cocaína custa mais 12 milhões de pesos
4. Compra de planilhas e documentos duplicados para tirar os 100 quilos de droga custa mais 3 milhões de pesos
5. Compra de instrumentos vários como serras, martelos, soldaduras, tem um costo de um milhão
6. Adquirir os lacres que substituirão os verdadeiros do contêiner custa 2 milhões de pesos
7. O pagamento da contaminação do contêiner no porto custa 12 milhões de pesos
8. O pagamento aos “donos” da zona (quadrilha) donde sairá o embarque é de 130 milhões de pesos
9. O investimento total de um narcotraficante para tirar a droga do país é de 760 milhões de pesos.

- Um carregamento de coca enviado desde um porto da Colômbia demora cerca de 25 dias para chegar à Turquia.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
.